28 de fevereiro de 2010

Da série pagando o preço

O senhor da foto ao lado poderia passar pelo tio engraçado que desanda a falar besteira nas festas de família ou pelo professor universitário cujas aulas tem um toque de genialidade. História da arte, filosofia, faça sua escolha. Simpático ele é, não é? Ô se é. E é, ao mesmo tempo, o maior ladrão da história, responsável pelo prejuízo de US$ 65 bilhões a investidores e condenado, no final de 2008, a 150 anos de prisão.
Bernard Madoff conta hoje com 72 anos e cumpre pena na prisão estadual da Carolina do Norte. Foi presidente da Nasdaq, a bolsa americana de empresas de tecnologia, colaborou com entidades filantrópicas e esteve a frente de fundos de investimentos desde que fundou sua própria empresa, em 1960. Acumulou um patrimônio razoável - sua cobertura em Manhattan,confiscada pelo poder público, já teve oferta de quase US$ 9 milhões, que serão usados para cobrir parte dos prejuízos. A pergunta que fica é: qual o limite?
Insensatez e insaciabilidade parecem caminhar lado a lado na tênue linha que coloca ganância e espírito coletivo em lados opostos. Para exceder valores e desejos comuns à maioria dos seres humanos, um homem se dispõe a criar um esquema em que se beneficiará de bilhões, ciente de que prejudicará milhares. A conta de chegada é simples: para embolsar recursos financeiros gerados por fatores não produtivos, mas especulativos, é necessário que, na outra ponta, alguém injete dinheiro. Foi o que fizeram empresas, bancos e sabe-se lá quantos outros investidores no esquema conhecido como pirâmide, onde os ganhos se realizam com cada novo investidor que entra na base. Quando estoura, quem está no topo leva vantagem; o resto... Sifu.
A vida do sr. Madoff, vítima de seus lampejos egoístas e vilipendiosos, resume-se hoje à privação de liberdade. Mais do que isso: sua expectativa de vida atrás das grades é bem menor. Tivesse ele mais 20 anos pela frente, seguramente teria seu período reduzido para 5 ou 6 nessa condição. Seu estado de saúde não é bom - especula-se que tenha desenvolvido um câncer no pâncreas - e outro dia foi levado ao hospital com suspeita de fratura nas costelas. Quem mandou não ficar quietinho no seu canto? Roubou, roubou e nem teve tempo para aproveitar, coitadinho...
A justiça não falha. E me refiro à lei divina, que faz o ajuste de contas à sua maneira. O juiz Lalau, por exemplo, teve o benefício da prisão domiciliar pela idade avançada, mas a hipertensão e a depressão lhe roubaram a magia da vida. Sérgio Naia, que lesou famílias com a queda do Palace II no Rio (8 mortos e 150 desabrigados) e nunca teve seu partimônio tocado, enfartou e morreu aos 65 anos. Bem feito, com todo respeito
O senso comum indica um caminho, o ganho incomensurável outro. E é nessa estrada da vida que estes senhores vão fazendo seu acerto de contas com o plano superior, quem sabe embuídos da humildade e gentileza (boa, Orlando!) para fazer deste um mundo mais honesto e equilíbrado. Em suas próximas encarnações, talvez.

25 de fevereiro de 2010

Heróis anônimos: Orlando Silva

Ele carrega no nome a herança do cantor das multidões (e eu, burro, esqueci de perguntar se era mesmo uma homenagem). Nascido Orlando Silva de Souza em 1968, na distante Formosa do Oeste - município paranaense de pouco mais de 7.000 habitantes, segundo o censo de 2004 - veio para São Paulo aos 4 anos de idade. Fez de tudo um pouco: trabalhou como pintor, gesseiro e garçom, profissão que que lhe rendeu um lugar de destaque, até o ano passado, no La Casserole, um dos mais tradicionais restaurantes de São Paulo.
Conosco, no escritório, Orlando está há 5 anos. É ele quem cuida da limpeza e organização diária do local, conferindo um toque de classe por onde passa. Além disso, dispõe de um traço pouco comum à maioria das pessoas: a gentileza. Interessante notar o poder de adaptação que determinados indivíduos possuem quando se trata de interagir com o ambiente que os cerca, não apenas porque constroem, no processo, um canal comum, mas porque são dotados da capacidade de ver a vida em perspectiva, como um espelho, onde o outro nada mais é do que um reflexo de si mesmo. Assim colhemos os frutos de uma vida em sociedade com respeito, dignidade e amor, seja lá qual for a religião, perfil econômico ou sexo. Aliás, isso não faz a menor diferença...

21 de fevereiro de 2010

O novo Mundo

Qualquer semelhança não é mera coincidência, sobretudo pelo fato de ter escrito sobre 'Avatar' no último post. Saltemos, pois, do futuro, 150 anos a frente, e mergulhemos no passado...

Corre o ano de 1607 quando 3 navios ingleses aportam na Virginia (sugestivo nome para uma terra inóspita) a fim de estabelecer uma colônia no local. Trata-se da história de Pocahontas em formato adulto, envolta em tamanho lirismo que - às vezes -chega a ser chato. Mas essa é a marca do diretor Terrence Malik, que conseguiu imprimir o mesmo movimento em 'Além da linha vermelha', o mais poético dos filmes que tiveram como tema a 2a. grande guerra, em particular as batalhas travadas entre americanos e japoneses. Como diz o Dan, velho amigo, 'Petacular!'


É essa plasticidade que dá a 'O novo mundo' a conotação do sonho, da descoberta e da possibilidade de união entre os povos (do ponto de vista indígena, logicamente, que por ironia do destino chega a salvar o branco do fustigante inverno local ao lhe fornecer comida). Em reunião do conselho, os índios chegam à conclusão que devem expulsar os brancos, antes que mais cheguem e a situação se torne irreversível. O que não sabem é que o processo de conquista e apropriação, acima de qualquer lei, cedo ou tarde os empurrará para fora de suas terras. Avatar?


É, portanto, a característica selvagem humana que prevalece (e dizer que eles, índios, eram os selvagens). Rompem-se com as tradições da cultura ao se passar como um rolo compressor sobre seus valores, submetendo-0s a preceitos que sob a ótica do homem dito 'moderno' são verdadeiros. Assim se destrói uma nação, enterrado-se valores em nome da nova ordem. Nada é mais emblemático do que a cena em que Pocahontas, a princesa do além-mar, é recebida pelos reis ingleses: vestida dos pés a cabeça em trajes europeus, abrindo mão de seu verdadeiro mundo, é a prova viva do poder que deixa suas marcas por onde passa. Ela não sabe, mas já está morta.


As contradições são imensas. Enquanto índios se unem em torno de objetivos comuns para garantir sua sobrevivência - caçar, organizar seus ritos - os homens matam uns aos outros na luta pelo poder ou pelas provisões que ainda restam. Doenças se alastram, crianças são abandonadas à própria sorte e tem-se a nítida visão do caminhar humano na construção de suas sociedades: um contínuo arrastar que deixa vidas pelo caminho, se suporta em em seu individualismo e faz valer, acima de tudo, a lei do mais forte.


Outras práticas

15 de fevereiro de 2010

Avatar

Corre o ano de 2154 no planeta Pandora, habitado pelos Navis (e por uma série de outras criaturas que somente gênios criativos são capazes de conceber) e tomado por uma colônia humana, que pretende se apoderar da área em que os nativos vivem. O motivo? O de sempre: o homem invade territórios que não lhe pertencem para se apoderar de riquezas que não lhe pertencem. A diferença, no caso, é que a voracidade humana extrapola as fronteiras do planeta Terra.
A tecnologia humana é capaz de desenvolver seres idênticos aos nativos (os chamados avatares) e a eles se conectar através da mente. Assim se desenrola a trama em meio a um cenário deslumbrante, seres exóticos e muita aventura. O 3D faz toda a diferença, as cenas ganham um realce fora do comum e confesso que fiquei encantado. Na minha opinião, pode se dizer que Avatar escreveu um novo e definitivo capítulo na história do cinema. Mas não é sobre o roteiro em si que quero falar.
O paralelo com as grandes navegações e a conquista das Américas é inevitável. Os colonizadores humanos de Pandora equivalem aos navegadores portugueses e espanhóis do século XV: as mesmas intenções bestiais, guardadas as devidas proporções tecnológicas. Os Navis representam as populações indígenas, incluindo linguagem e rituais. O que se mantém é a disparidade de condições bélicas, por assim dizer, que separam agressores e agredidos. Se no passado eram armas de fogo primitivas que faziam a diferença ante o arco e flecha, no futuro é o aprimoramento das técnicas mortíferas, refletido em armas de última geração e naves de causar inveja a Flash Gordon, que criarão um abismo quase intransponível. Quase. Porque enquanto o passado, documentado, é fato, o futuro não passa de especulação. A despeito dos contrastes, mocinhos e bandidos tem as mesmas chances de se saírem vencedores de um embate, sobretudo, ideológico. Vale assistir.
O recado, de qualquer maneira, está dado: essa peste humana, onde quer que esteja, causa sempre os mesmos estragos. Se 'Avatar' passasse nos cinemas da galáxia, certamente outros povos criariam mecanismos para evitar que seres vampirescos como nós se aproximassem de seus habitats. Há que ser por um ponto final à erva daninha humana e começar tudo de novo, não resta a menor dúvida.

Um aninho de blog!

Fevereiro é o mês em que o 'Blog do Mensageiro' completa um aninho de vida. Esse espaço nasceu no intuito de expor as idéias que trago na obra "O último mensageiro" cujo lançamento, se tudo correr bem, será este ano. Os princípios de fé, justiça e solidariedade de Abel Antunes se espalham pelo infinito, fazendo eco para que um mundo melhor, mais equilibrado, seja realidade. Vida longa a Abel e sua trajetória!
Em comemoração, solto o vídeo 'Bright lights' do Placebo. A música tem marcado minha semana e tenho certeza que quando ouví-la daqui dez, vinte ou trinta anos, as imagens de fevereiro de 2010 se farão presentes.
Agradeço aos amigos que por aqui passam, registrando ou não suas impressões, aos que me incentivam a escrever, e a estes da blogsfera - Kyria, Wal, Cris, Ricardo, Paty, Andrea, Elaine, Sil, Ana, Barbara e tantos outros - que trocam energias tão positivas. Aos amigos Pri e Haroldo my special thanks!!
Bright Lights. Despertar, realizar. Apaixonar!
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12 de fevereiro de 2010

Eu já sabia!

A frase pode ser atribuída a Norman Smith, engenheiro de som que gravou nos estúdios da EMI, entre outras coisas, Beatles e Pink Floyd (holly shit!). Smith adotou o pseudônimo de 'Hurricane Smith' para gravar 'Don´t let it die', em 1971 (na realidade, Smith queria que John Lennon fizesse os vocais, mas acabou conduzindo o hit por conta própria. Fico imaginando a voz rasgada de Lennon no refrão, um efeito avassalador).
Na prática, significa dizer que há quase 40 anos um cara, misto de músico e produtor, alertava para os rumos da estupidez humana, preconizando a importância do ato de preservação do planeta e de seus habitantes.
O que vai na alma do poeta, e que transcende a irracionalidade humana, tem seu lugar reservado na galeria dos rebeldes anônimos, dos heróis que espalham a voz no vazio em busca de compreensão. A voracidade humana, entretanto, atravessa seu caminho como um raio, derruba seus princípios a fim de se manter intacta, soberana, ainda que seus atos venham a comprometer a integridade do planeta. Como sempre digo, alguém haverá de pagar pelas obcenidades cometidas em nome da ganância, e não é mais do futuro que estamos falando. Esta acontecendo agora.
A música em si, no vídeo abaixo, não é nenhuma obra prima. Mas tem duas grandes virtudes: a primeira, sabida, é o alerta. A segunda é trazer recordações de infância, de tempos em que se jogava bola descalço na rua e ninguém se escondia da chuva...

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7 de fevereiro de 2010

The Zoo



Um dos traços mais evidentes da estupidez humana chama-se Jardim Zoológico. Achei que tinha tido a boa idéia de aproveitar o sol da manhã deste domingo para fotografar por lá, mas percebi que locais como esse despertam questionamentos internos que superam, de longe, o prazer da foto. Tudo bem que o resultado em si é expressivo: belas imagens de animais exóticos, closes de lobos que, revistos, parecem ter saído de um livro, crianças e suas expressões de encantamento. O preço? Não é apenas o que marca a bilheteria.

Animais retirados de seu habitat natural e levados ao confinamento, sobretudo quando um bando de humanos idiotas se junta para admirá-los, sofrem. Duas situações chamaram minha atenção: a do tigre siberiano que não parava de andar de um lado a outro, como se estivesse em crise de stress, e da onça-pintada largada sobre a árvore, inerte, o olhar de vítima perdido no vazio. Uma tristeza, simplesmente porque o homem acha que tem o direito de aprisionar seres de outras espécies apenas para admirá-los, sufocando toda sua energia e prazer de viver.
Fico a imaginar o que aconteceria se seres de outros planetas pintassem por aqui, achassem a raça humana exótica e levassem alguns espécimes para expor em seu zoológico sideral (aliás, não seria má idéia se recolhessem os BBBs e os deixassem por lá). Se sentíssemos na pele a dor e a tristeza destas criaturas, mesmo bem tratadas pelo pessoal do Zoo, talvez pensássemos duas vezes antes de expô-las ao ridículo. E pra que? Para que nossas crianças tenham a oportunidade de ver um elefante de verdade, um tigre de verdade, um urso de verdade. Aqueles que estão ali podem ser tudo, menos de verdade. Tiveram sua alma roubada!
Podemos ensinar nossas crianças de outras maneiras, sobretudo com a tecnologia avançada que dispomos. O mais importante, na minha opinião, não é mostrar a elas o bicho ali, ao vivo e a cores, mas preenchê-las com valores que passam pelo respeito aos animais, incluindo sua liberdade.
Mas o que esperar de uma raça que não respeita nem mesmo seu semelhante ou a terra em que pisa? Pedir que não se empurrem para ver o leão, que não xinguem o rinoceronte porque está de costas ou que não se espremam entre milhões de câmeras digitais em busca do melhor ângulo?
Melhor passar a régua e começar tudo de novo...