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15 de janeiro de 2011

CATÁSTROFE NO RIO: EPICENTRO EM BRASÍLIA

Tênue é a linha que separa indignação de revolta. No primeiro caso, levantamos palavras de ordem para protestar contra a administração pública que, ciente da situação, optou pela inoperância. No segundo, rasga no peito o desejo de armar-se com paus, pedras, facas e tudo mais que estiver à mão para invadir o congresso e botar todo mundo pra correr. O Brasil precisa, URGENTEMENTE, de uma revolução, de gente que tenha brio para derrubar as instituições que se fartam do poder por séculos e nada fazem diante de situações que não lhes diz respeito. A tragédia anunciada no RJ vem, uma vez mais, corroborar a tese de que as catástrofes só acontecem porque o que se desenha incialmente como manifestação da natureza ganha proporções absurdas - o número de mortos passará de 600 - porque não há estrutura necessária para evitá-la. E por que? Vejamos:

1. O governo do estado, que encomendou um estudo geológico sobre a região em 2008, sabia das condições de risco a que estava exposta a população serrana do Rio
2. Mesmo diante da constatação, não foi capaz de remover as famílias das áreas. O processo é lento e burocrático, exige a autorização das famílias e a remoção para outro lugar. Diante da resistência imposta por estas pessoas e pelo penoso processo de PLANEJAR (onde colocaremos todo mundo?), é mais fácil optar pela inação
3. As populações carentes podem até ser responsabilizadas, ainda que indiretamente, mas é demais que o brasileiro (aquele mesmo que se espreme aos milhares em dia útil pra ver apresentação de Ronaldinho na Gávea) tenha a coerência e o discernimento para não morar em área de risco. Óbvio que ele gostaria de morar em Copacabana, Leblon ou Ipanema, mas levemos em consideração sua situação econômica para entendermos, com facilidade, porque são feitas essas opções.
4. "O Brasil conta com especialistas e tecnologia para enfrentar situações desta natureza. O que não possui é vontade política". Palavras da cientista belga Debarati Guha Sapir.

Entendo que este último ponto reflete com consistência a posição dos comandantes deste navio chamado Brasil, que por um lado luta para se inserir entre as potências do primeiro mundo e por outro mal sabe lidar com seus problemas de ordem estrutural. É de uma irracionalidade sem precedentes pensar em copa do mundo e olimpíadas enquanto há questões absolutamente mais básicas a serem resolvidas. Pagamos impostos à exaustão, não vemos reversão em nada. Enquanto isso, a corja que se instalou no planalto quer mais é regar seus fartos jantares com prosseco e fumar charutos cubanos, ganhar R$ 26.000,00 ao mês (sem contar as verbas para isso e aquilo, auxílio moradia e etc) e fazer-se valer de benefícios que nós mortais não dispomos. Essa semana mesmo uma procuradora do estado do Rio, suspeita de dirigir alcoolizada, não teve que se submeter ao teste do bafometro por sua condição (havia entrado na contra mão, batido em um ônibus e atropelado uma doméstica). De onde diabos alguém tirou - e alguns aprovaram - esse privilégio, que coloca acima da lei pessoas por sua formação, que na prática comete os mesmos crimes e não é penalizada? Tem filho de deputado atropelador na cadeia?

Ainda temos muito a aprender. Mas enquanto contarmos com que faz do poder sua fonte de recursos sem ilimites, dificilmente teremos um país saudável e que crie condições para sair do buraco. Programas assisstencialistas serão sempre moeda de troca: não tiro a água do pescoço, mas pelo menos não morro afogado.
A tragédia do Rio é fruto de uma tragédia muito maior que se desenrola em Brasília todos os dias.

Foto: Terra

19 de dezembro de 2010

Um país em desequilíbrio


Dizer que o Brasil é um país de contrastes não revela nenhuma novidade. Do clima árido da caatinga à geada catarinense, das belas praias nordestinas aos platôs do meio oeste, dos abismos que insistem em dividir ricos e pobres, por mais que o governo Lula tenha integrado à sociedade boa parte da camada miserável que por trás dela se escondia. Exemplos existem aos montes, mas nada fala mais alto do que a linha divisória que existe entre o homem público e o privado.

O congresso acaba de aprovar um aumento de 62% para deputados e senadores que eleva o salário da categoria para R$ 26 mil ao mês, sem levar em conta os extras como auxílio moradia, passagens aéreas, gasolina e motoristas, verba indenizatória e o diabo a quatro, totalizando a bagatela de quase R$ 1 milhão ao ano por safado. Sim, é isso que custa um parlamentar em um país em que ainda há fome, déficit habitacional, sisitema de saúde miserável, educação pífia e falta de saneamento básico (em Manaus, onde se pretende construir um estádio para abrigar a copa, pouco mais da metade da população tem acesso à rede de esgoto). Se estivesse vivo, Renato Russo insistiria em cantar seu famoso refrão 'Que país é esse?', que ecoa sem trégua na minha cabeça quando me deparo com abusos como esse. Dou passagem então aos Titãs e seu 'Bandido, corrupto, ladrão, filho da puta!' - porque não há outro sentimento capaz de tomar corpo ante tal acinte. E algum deles ainda se saiu com aquela que diz que se político ganhar bem não precisa roubar, outro tiro na cara do contribuinte. O que temos, na verdade, é um bando de pilantras que legisla em causa própria e se vê acima de qualquer preceito social que exige equilíbrio, bom senso e ação. Não é possível imaginar que um país do terceiro mundo, como somos, tenha políticos mais bem pagos que o Japão, Estados Unidos, Alemanha, Inglaterra. Simplesmente não temos cacife para isso.

O que temos são profissionais de assalto que se preparam para tomar o poder e, uma vez dentro dele, agem de acordo com seus interesses. Nada, absolutamente nada justifica um salário de R$ 26 mil para uma corja em passo de caramujo que trabalha de terça a quinta e tem à sua disposição todas as mordomias que o dinheiro pode comprar. E dizer que estudaram e se preparam para isso? Temos aí o Tiririca para provar o contrário. O palhaço nunca riu tanto daqueles que deveriam estar lá justamente para dele rir. Seu primeiro projeto? Não entendeu a pergunta e respondeu que era comprar um apartamento...
Trago um exemplo sueco, que anda na contramão do progresso. Provavelmente porque o país deles seja atrasado, desinformado, sem estrutura e com indicadores sociais piores que os nossos. Deve ser isso que justifica a retidão, honestidade e principalmente o enquadramento do homem público no seu devido lugar, o de servir a comunidae que o elegeu. Sem excessos, mordomias ou nada que o faça pensar que sua posição o qualifica como um ser superior. Ao contrário. Seu objetivo, longe de ser o ganho particular, é servir. Afinal, ele é um servidor público dentro do conceito que foi criado, não moldado aquele que assumimos por aqui.

Bastilha neles...


2 de novembro de 2010

A hora e a vez de Dilma Rouseff

Reza o conceito democrático que metade mais um dos votos válidos de uma eleição, habitualmente conhecido como maioria simples, confere ao candidato escolhido a condição de vencedor. Mais do que consensual, o método é matemático e vale como regra, já que não há outra forma de estabelecer um referencial quando se trata de alçar um cidadão comum a um cargo público, principalmente quando se trata da presidência da República. Dilma Rouseff venceu sim, mas não com esmagadora maioria dos votos, o que limita a questão do consenso. Em uma eleição marcada por difamações, cinismo e troca de farpas, a história registra mais uma vez a derrota do candidato Serra, desta feita para aquela que será a primeira presidente mulher deste país.

Os números comprovam a divisão do eleitor brasileiro, não apenas no que diz respeito a escolha do candidato, mas no aspecto sócio-econômico: Serra teve maioria no Sul e em São Paulo, principal colégio eleitoral do país; Dilma venceu com ampla vantagem em todo o Norte/ Nordeste e em Minas, outro colégio de expressão. Não é preciso ser nenhuma assumidade para saber que a vitória de Dilma (uma completa desconhecida do público leigo antes de assumir o ministério de minas e energia e depois a chefia da casa civil) decorre da gestão Lula, que em seus 8 anos de governo equilibrou a distribuição de renda e melhorou as condições de vida das populações menos favorecidas. Nesse ponto, é inquestionável a atuação do mandatário da república. 

O que aconteceu depois é uma outra história. Lula confundiu a figura de presidente com suas ambições pessoais e, mal assessorado, caiu na besteira de apoiar governos totalitários como o Irã, a Venezuela ou Cuba e deu adeus às suas ambições internacionais. Deu apoio à sarney na crise do congresso, aceitou o apoio de collor, teceu críticas à situações que não lhe diziam respeito como um cidadão comum, não como um estadista (não esqueci do mensalão, mas não vou mencioná-lo porque não se trata de um invento do PT, embora tenha ganho dimensões extraordinárias sob sua gestão). Mesmo a escolha de Dilma, antes de ser um consenso do partido que o elegeu, é outra decisão pessoal. Com tantas "estrelas" a brilhar em seu partido, como bem lembrou Ferreira Gullar na Folha deste domingo, a escolha de Dilma deve-se, possivelmente, ao desejo do presidente em se reeleger na disputa de 2014. Tudo dependerá de como Dilma conduzirá a questão até lá.

Dilma não representa, portanto, nenhum modelo de administração diferenciado que tenha gerado resultados expressivos ou ideias inovadoras. A "mãe do PAC" (Putz, Arranquei a Cortina!), pelo contrário, conta (ou contou) com gente em sua equipe incapaz de não confundir o público com o privado e é tão articulada no uso da língua portuguesa quanto um aluno de segundo grau. É, na prática, fruto do Lulismo, que conta com crédito suficiente junto à população para eleger um presidente, ainda que sua trajetória política não conte com nada de extraordinário. Eu, particularmente, não tenho nenhum apreço por figuras que se julgam superiores e que passam, em última instância, ares de prepotência e arrogância quando se dirigem a jornalistas ou ao público comum. Sei também que isso pouco importa. O que devemos cobrar são resultados, que passam pela continuidade da evolução econômica deste país e pelo saneamento do congresso, antro de bandidos e corruptos.

A votação expressiva de Lula, há oito anos, refletiu o desejo de mudança do povo. Dilma, hoje, significa sua continuidade. Eu e mais 190 milhões de brasileiros lhe desejamos sorte, Dilma.

18 de outubro de 2010

TROPA DE ELITE 2: O INIMIGO AGORA É OUTRO

Pode até ser, mas a tensão e a realidade nua e crua das armadilhas do poder, criadas no piloto, mantém-se intactas. Um show que não pretendo estragar, caso você ainda não tenha assistido. Quero apenas tecer alguns comentários sobre a importância que esta sequência traz ao abordar o assunto da bandidagem não mais de cima para baixo, quando se trata de acuar bandido em favela, mas de baixo para cima, quando a banda pobre que habita a esfera pública deste país (99,9%) é colocada à prova.

O crime está associado ao Brasil  como a cerveja à Alemanha, a vodca à Rússia ou o whisky à Escócia. Faz parte e ponto, é raiz. Para classificá-lo, façamos uma simples analogia, comparando o nível sócio econômico da população a um tanque de gasolina: quanto mais vazio, mais próximo da miséria; quando mais cheio, mais próximo da elite que trafega na área pública. No frigir dos ovos, é tudo bandido.

Se o ponteiro de gasolina aponta para baixo, na reserva,  lidamos com a população de baixa renda que exerce a prática do crime como caminho mais fácil para mudar de vida, ainda que isso possa custar a expropriação alheia ou a sentença de morte. Quem é que se importa? O nível de consciência de quem pratica o crime tende a zero, o sujeito não tá nem aí com sua vítima, quer mais é se dar bem. O que vale é a lei da selva, sair da base da pirâmide para atingir algo que satisfaça seus desejos materiais.

O ponteiro da gasolina sobe um pouco, passa para o meio tanque. Lá encontramos falsificadores, fraudadores, policiais que aceitam suborno e toda sorte de indivíduo que, indo mais além, consegue traçar um plano para apropriar-se de algo que não lhe pertence. Já não é o ladrão pé de chinelo; o cara trafica, vende gasolina adulterada, altera data de validade do produto que está em seu estoque antes que vença, contrabandeia e por aí vai. A ação policial contra esses caras não é tão ostensiva como quando o tanque está vazio, até porque o trabalho desses caras é mais na maciota, na moita, sem alarde. Não matam ninguém e não recebem 200 anos de pena; pelo contrário, na maioria das vezes saem impunes, já que esta impera em escala ligeiramente maior e a corja se sente confortável seguindo na prática. O Estado não tem agentes suficientes para coibir sua ação, assim que entra ano, sai ano e nada muda.

Ah, e então... O tanque cheio. Vale lembrar que a prática de crimes ocorre em qualquer estágio, ¾ de tanque para mais ou para menos. A diferença é que quanto mais cheio o tanque, maior é a impunidade ou a capacidade que o estado tem em identificar e prender estes bandidos. E quando o tanque está cheio... ah, os malditos sanguessugas corruptos do sistema público. Fazem valer suas leis e pairam acima delas. Fosse o congresso uma casa séria e Sarney já teria sido barrado há muito tempo. Mas como tornou-se um aliado da base do governo (leia-se 'O presidente Lula precisa de um inseto como esse pra sobreviver e chega a ponto de dizer que não se deve dispensar a Sarney o tratamento de um cidadão comum'), nada acontece. Renan Calheiros, que já pediu afastamento do cargo de presidente do congresso por corrupção passiva (descobriu-se que uma empreiteira pagava as contas de sua amante ou algo que o valha), foi novamente eleito e, pasmem, quer ser presidente novamente. Isso jamais aconteceria em uma país sério, onde leis são feitas para quem não tem o tanque cheio (quando chega a vez deles, livram-se com facilidade). Claro, a lei do corporativismo: se um nobre deputado ou ilustre senador condena um colega de classe, certamente receberá o troco. Celso Daniel que o diga.


O que Tropa 2 procura mostrar é que cedo ou tarde a mão da justiça também haverá de alcançá-los (engraçado como o público aplaude após as sessões. Achei que tivesse sido só na minha, mas ouvi no rádio que isso tem acontecido em diversas). Trata-se expor as entranhas do poder público e o sistema que se perpetua em troca de votos, estabelecendo uma relação altamente promíscua e que beneficia, cada vez mais, aqueles que estão na ponta. O que diferencia o criminoso comum de um servidor público é que o primeiro, de tanque vazio, tem que sujar as mãos para obter seus ganhos. Já o do tanque cheio não, usa as benesses do sistema para enriquecer ilicitamente. Quem está "mais errado"? Não há "mais certo" ou "mais errado", há bandidos e ponto. O criminoso comum pode apodrecer 20 anos na cadeia e o caso ainda será lembrado. O do tanque cheio? Bem, esse o tempo se encarrega de esquecer tão rapidamente que parece que nem ocorreu. Calheiros que o diga.

Quando tivermos 200, 300, 500 capitães Nascimento com culhões para peitar essa corja, aí sim poderemos pensar em mudar as regras do jogo. Aqui tem um!

16 de outubro de 2010

Ou o Brasil acaba com a saúva ou...

Santana do Mundaú é um município alagoano a pouco menos de 100km de Macéio. Tem altitude de 221m, área urbana de 223km2 e população de 12.000 habitantes. Entre eles, uma saúva de peso: José Eloi da Silva.


O supra citado, prefeito da cidade, foi afastado por determinação da Justiça do Estado pelo tão comum delito de desvio de recursos públicos. O safado simplesmente guardou para si todos os donativos enviados para as vítimas das enchentes que assolou a região em junho passado e que deixou um sem número de desabrigados. Como se não bastasse, promotores do Ministério Público constataram que mais da metade das residências teoricamente afetadas pelas enchentes e dadas como destruídas, continuam intactas. A indenização, entretanto, foi parar na mão do prefeito e seus asseclas (9 funcionários foram afastados, incluindo os responsáveis pelas “pastas” das finanças, educação e assistência social, que beleza!). Entre fraudes e desvios, há indícios de um prejuízo da ordem de meio milhão ao erário público.

Ainda acho que essas bestas deviam ser queimadas em praça pública ou, pelo menos, terem suas mãos decepadas na mesma condição. Com todo o respeito, fodam-se os direitos humanos. Um cara que tem a capacidade de desviar recursos destinados à caridade e que suprirá, ainda que por tempo determinado, a necessidade da população desabrigada pela chuva, não merece viver. Ou se merece, que seja sem as mãos, assim aprende a não enfiá-las onde não é preciso (garanto que prefeito, secretário, deputado ou quem quer que seja pensará duas vezes antes de meter o nariz onde não é chamado). Está mais do que provado que a impunidade neste país é o maior estímulo para que figuras de baixa estatura como esta, nos confins do mundo, se achem acima da lei para roubar o que não lhes pertence. Pior: não estamos falando do desvio de recursos para uma obra super faturada ou algo que o valha. Estamos falando da assistência a desabrigados.

O Brasil carrega esta condição em cada estágio de sua história sem parecer se preocupar com o fato. A começar pelas capitanias hereditárias e as sesmarias, há 5 séculos, que de início já demonstravam  o corporativismo português fincando pé em terras tupiniquins. De lá para cá, a história só faz mudar os personagens: criam-se leis e colocam-se figuras públicas acima delas. Não há melhor exemplo em tempos recentes do que a figura empobrecida de José Sarney, que manchou a linhagem presidencial ao deixar seu nome registrado na história (aliás 1 - como tantos outros, e aliás 2 - simplesmente herdou essa condição ante a morte de Tancredo Neves. O destino lhe sorriu com um lugar ao sol, e ele rapidamente tratou de arrumar lugar per tutta la famiglia – coisa de mafioso mesmo). Roseana Sarney, a jóia do agreste, teve misteriosos R$ 1,3 milhão encontrados em seu escritório durante sua campanha em 2002; Fernando, filho do bigode, foi/é (nunca se sabe o que vai acontecer) investigado por tráfico de influência, formação de quadrilha, falsificação de documentos e crime contra o sistema financeiro nacional (operação boi barrica). Tem nora empregada não sei onde, a Fundação Sarney já embolsou mais de R$ 1 milhão em doações da Petrobrás (alguém precisa avisar esse presidente pinguço que ainda tem gente passando fome neste país) e o velho coronel nem sabia, segundo suas próprias palavras, que recebia verba de moradia, mesmo tendo domicílio próprio em Brasília. Se o congresso é a casa da democracia, o reflexo dos desejos e anseios do povo, como é possível ser presidido (combina com presídio, José) por um desqualificado do ponto de vista ético e moral?

Perto da famiglia Sarney, o prefeito de Mundaú é dinheiro de pinga. É um otário que se serve da desgraça alheia para abrigar os seus, ainda que seja na longínqua cidade da qual é prefeito. Mas é justamente do micro para o macro que devemos partir, varrendo da história esse tipo de gente para que o país, a médio prazo, possa fazer valer suas leis com respeito e dignidade, alçando ao poder público personagens que tenham condição de fazer algo em benefício da população e não o contrário. Quando não houver mais guarida para esse crimes, quando todos estiverem sujeitos às mesmas leis, então teremos dado um passo adiante. É preciso um basta geral e algumas mãos servindo de exemplo. Não há, nesta balburdia que foi criada, a menor condição de se estabelecer equilíbrio sem uma medida radical, manando os Zé Manés das Santanas de Mundaú da vida para o lugar que merecem.

"Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil", diz o macunaíma sem caráter de Mario de Andrade. E que não haja exceções.

Crédito da foto: Dimas Filho

13 de agosto de 2010

Do público ao privado


A história da humanidade registra, quase que em ato contínuo, a espoliação e privação do direito alheio como prática regular e permissível. Foi assim com as civlizações da antiguidade, com a era dos descobrimentos, com a revolução industrial. E chegou aos nossos dias com o exercício do mandato político.

É mais do que sabido que essa corja que habita as profundezas do congresso acostumou-se a sangrar os cofres públicos em causa própria. Na contramão do progresso (congresso e progresso podem até rimar, mas definitivamene não combinam), estabelecem na vida pública a fonte de enriquecimento pessoal, apropriando-se de bens que, definitivamente, não lhes cabem. Como ainda são as raposas que tomam conta do galinheiro é natural que a classe toda se beneficie e ninguém, em última instância, seja punido. Na verdade, e sem medir palavras, estão pouco se fudendo.

A Folha apurou, no final de semana passado, a utilização de dinheiro público no financiamento de campanhas eleitorais. Significa dizer que gente como o Genoino, na tentativa de se reeleger, solicita reembolso de suas despesas com aluguel de mesa, cadeiras e sofás. Não importa o valor (algo em torno de R$ 300), o que vale é o conceito e os três imbecis que fazem parte da história.
Imbecil 1: o responsável por creditar a Genoino o valor do reembolso (provavelmente não questiona porra nenhuma e o faz automaticamente)
Imbecil 2: o próprio Genoíno que, depois de estampada nos jornais a falcatrua, jura de pé junto que não vai mais pedir reembolso. De novo: não se trata do valor, mas do conceito. É essa mentalidade abominável que permeeia o ambiente político e faz com que qualquer um vislumbre, no dinheiro público, a possibilidade de um ganho extra
Imbecil 3: eu, você, todos que pagam impostos para que esse bando de vagabundos se esbalde

Alguém pode explicar como é que quase R$ 1 milhão são gastos com despesas de combustíveis quando o congresso se encontra em recesso (ah, aí está, congresso e recesso não só rimam como combinam!)? Simples: deputados e senadores esão visitando suas bases eleitorais, preparando-se para reeleição, e nós estamos pagando seus deslocamentos! Isso sem contar que 53 deputados solicitaram a quota máxima para esse tipo de despesa, que é de R$ 4.500. Nego recebe 5 paus de gasolina em período de recesso?! Salário mínimo 10% desse valor? Que país é esse?! Bastilha neles, guilhotina já!

Um país que tem boa parte de sua população vivendo em condições de penúria não pode permitir que esse tipo de procedimento ainda exista. Como consciência é algo que passa longe dessa corja, é preciso que gente como nós, cidadãos comuns, denuncie essas práticas e renove o tal congresso (ou como propõe o candidato do PSOL, feche essa merda de uma vez, já que a única coisa que fazem é contribuir com eles mesmos. Não é má idéia, Plínio!).

Um político deveria, por princípio, doar-se, do alto de sua envergadura moral, para dar ao povo exatamente a mesma condição que ele, do ponto de vista privado, detém. Do privado ao público, o Brasil já está de saco cheio do caminho contrário!

PS.: para piorar, esses mesmos bandidos instituem leis que limitam sua exposição ou a condição de serem ridicularizados na mídia. Tem que ser alvo de denúncias sim, de chacotas se necessário para expor sua condição de espoliadores. Que a lei vá para o inferno, a lei moral é superior a qualquer tipo de coação!!


20 de março de 2010

Escrúpulo? Só se for no Aurélio...


Fraudar uma licitação pública, pra quem é do ramo, é coisa relativamente fácil. Imaginemos a seguinte situação: um orgão público abre concorrência para a construção de uma determinada obra (sua nova sede, por exemplo). Um edital é publicado e as construtoras que se encaixam nos requisitos participam, cabendo àquela que apresentar o melhor preço, atendendo às necessidades da obra, a responsabilidade de tocá-la. simples assim.
O custo médio da obra pode chegar, digamos, a R$ 100 milhões, e seria natural que os valores orçados por cada construtora girassem em torno deste número. Mas não. O que fazem os espertinhos: reunem-se por fora, como faz a máfia siciliana, estimam o menor custo em R$ 150 milhões para uma delas e passam 3 ou 4 propostas acima deste valor. O orgão público dá ganho à proposta de R$ 150 milhões e as construtoras, diante do acordo que fizeram, dividem o lucro entre si.
Não se trata dos mecanismos que regulam preço no mercado. Você pode se apaixonar por um relógio na vitrine de uma joalheria e se dispor a pagar uma fortuna por ele não só porque estará comprando a possibilidade de manter-se a par do tempo, mas o status que a peça lhe proporciona. Se você vai gastar R$ 1.000,00 ou R$ 10.000,00 o problema é seu, o tamanho do seu ego haverá de determinar o real valor que o tal relógio tem pra você. Enquanto houver uma pessoa disposta a gastar R$ 10.000,00 em um relógio (demanda), haverá fabricantes dispostos a produzí-lo (oferta). Assim funciona o mercado, qualquer mercado. Construa você sua "nova sede" e fatalmente se verá diante da mesma questão.
O procedimento das construtoras, ao criar o cartel, parte do pressuposto que sangrar os cofres públicos é política comum de quem vê, na prática, o ganho ilícito, porém já formalizado, de todas as instituições que trafegam na esfera pública. O pensamento vigente é 'todo mundo é ladrão, todo mundo se apropria do que não é seu, todo mundo não tá nem aí para as carências de infra estrutura do país. Deixa eu garantir o meu!'
Se esquecem que os R$ 50 milhões do exemplo poderiam ser aplicados em escolas, moradias ou saúde. Sabem que, na prática, os R$ 50 milhões e tantos outros milhões estarão nas mãos de deputados, prefeitos, governadores, fiscais, auditores e tantos outros. É ladrão roubando de ladrão!
Agora vem a parte cômica da história e que fala diretamente ao título do post. Entende-se por escrúpulo a "consciência dotada de sentido moral, caráter íntegro". Que isso não existe em política não é novidade, até os mais incautos sabem disso. Mas a palhaçada parece não ter limites: após um acordo entre construtoras para a execução de uma obra, como no exemplo, a que "venceu" deu calote em outra e não pagou a parte que lhe cabia. Resultado: a construtora prejudicada entrou com uma ação na justiça. Quá quá quá quá quá!!! Não é ridículo? Não é fazer piada em praça pública? Tipo dois caras assaltam um banco, um deles foge com a grana e o outro vai dar parte na polícia! Pelamor, os caras acham que somos um bando de imbecis, isso não tem o menor cabimento. Onde já se viu tamanho descaramento? Que espécie de país é esse que aceita esse procedimento, ou melhor, que permite que indivíduos dessa estirpe se manifestem? Bola de ferro nesse caras e trabalho forçado já!
O resultado (menos mal): a construtor "prejudicada" perdeu a ação e a justiça encaminhou cópia do processo à polícia federal, que abriu inquérito sobre o caso.
Em tempo: a obra em questão é a nova sede do Instituto Nacional de Criminalística, orgão que comanda investigações sobre as atuações fraudulentas de, entre outras corporações, nada menos que as construtoras. Vou ter que parar por aqui porque já não estou alcançando o teclao, rolando no chão de tanto rir...
Como diz minha amiga Dani (Dani, parabéns pelo seu aniversário hoje!!): BENZADEUS!!!

10 de dezembro de 2009

Sucessão de erros




É da natureza humana a dificuldade em lidar com a morte. Quando ela atinge crianças, então, o assunto ganha contornos que escapam à compreensão e questionam os desígnios divinos em busca de explicações, ainda que sem sentido, que justifiquem a ceifa. Migramos da letargia ao ceticismo, cobertos de dúvidas quanto à própria existência. Quem somos? De onde viemos? Para onde vamos? Por que tão cedo? Mergulhamos em questões embriagados pelo drama da vida, rompendo de vez a barreira que nos transporta ao irracional. É o sentimento de revolta que assume o comando porque sabe que, não fosse pelo casuísmo que toma conta deste país, tragédias como a desta semana poderiam ser evitadas.


Na última terça-feira, depois das fortes chuvas que abalaram a cidade de São Paulo, seis mortes foram registradas. Quatro irmãos, entre eles três crianças (duas de 7 e uma de 9 anos), morreram sob a terra que engoliu o barraco em que dormiam. Para quem ainda carrega um pouco de sensibilidade, a reação é de tristeza e de consternação, pensando nos pais que terão a árdua tarefa de enterrar quatro filhos. Dois ou três dias depois esqueceremos o fardo que este casal carregará para o resto da vida, se ainda tiver disposição para olhar de frente para ela. O que vejo, em meio a tragédia, é uma sucessão de erros que deixa qualquer cidadão indignado.

Essa família não morava em uma zona de risco de deslizamento por espontânea vontade. Morava, com conhecimento de causa ou não, porque não há qualquer movimento do estado no sentido de impedir que estas áreas sejam habitadas. E por que? Porque o estado vai tirá-los de lá e levá-los para onde? Se interferir na questão terá também a responsabilidade de solucioná-la, o que não se encontra em condições de fazer (vale lembrar que boa parte das mazelas sociais e econômicas são foco da iniciativa privada, que através de ONGs e obras assistenciais desempenham o papel que caberia ao estado). O poder econômico é cruel e não cabe a mim questioná-lo, diferenças sempre haverão de criar desequilíbrios dentro de uma sociedade, uns com mais, outros com menos. É natural que seja assim e que cada um batalhe por seu espaço, lutando com dignidade para alcançar outro patamar. O estado, neste contexto, tem a responsabilidade de regular diferenças e criar condições para que as classes menos favorecidas progridam através de políticas de desenvolvimento, a maioria delas (se não todas) bancadas pelos otários como nós que pagam seus impostos em dia. Os erros começam na arrecadação e terminam em tragédia.

Conheço empresas que propositadamente não recolhem ICMs e, quando vão à juízo, já tem todo o esquema comprado para deixar menos dinheiro nas mãos de juízes, fiscais e advogados do que se tivessem que recolhê-lo aos cofres públicos. Dos males o menor, dizem, ainda que sob risco de serem flagrados, o que em mais de dez anos de esquema nunca aconteceu. Para onde vai o dinheiro? Para o bolso dos corruptos. E camelô, recolhe imposto? Claro que não, mas paga uma grana para manter polícia e fiscalização o mais longe possível de seus domínios. Para onde vai o dinheiro? Para o bolso dos corruptos. Brasília e o escândalo do mensalinho: só veio à tona porque um dos gatunos foi precavido e não quis pagar o pato sozinho. Ou vamos ser ingênuos a ponto de não acreditar que a mesma coisa rola em SP, BH, RJ, RS e pelo país afora? Mas é óbvio! Ninguém tá nem aí com o que vai acontecer com o Zé Povinho que mora em áreas de deslizamento, se é a mãe, o pai, o filho ou o espírito santo que vai dessa pra melhor. Mas sequestre o filho de um deputado pra ver o que acontece, é capaz de até a Interpol estar no seu encalço.

É preciso coragem para mudar. Enquanto as raposas tiverem a chave do galinheiro, a dignidade passará longe da farra e a cidade, infelizmente, seguirá enterrando suas crianças. Que futuro pode se esperar de uma sociedade que não sabe preservar seus próprios filhos?


22 de novembro de 2009

No país do pau brasil


A ambição da coroa portuguesa em estabelecer rotas de comércio com o Oriente e garantir o suprimento de especiarias à corte acabou por trazer, por simples obra do acaso, Cabral e sua desajeitada frota a terras tupiniquins. A saga dos aventureiros lusos todos conhecemos, exaltada em tonalidades heróicas nos livros de história ou nas imagens fantasiosas que se solidificaram em nosso subconsciente - quem é que não fica com aquele quadro da primeira missa rezada no Brasil na cabeça? Até índio devoto de Santo Antonio tinha!

A prática exploratória, traço característico da política colonialista, logo deu as caras em terras Brazilis com a extração do pau brasil e quase levou a espécie à extinção (ainda hoje o pb encontra-se na lista de espécies ameaçadas do Ibama. Interessante notar que não apenas a madeira em si era objeto de cobiça, mas a resina obtida no processo de extração caia com perfeição à indústria têxtil da época no tingimento de tecidos). E acho que foi a partir daí que se iniciou o jogo de interesses espúrios que se perpetua até os dias de hoje.
O pau brasil e a população indígena nativa, envolvida por 'livre e espontânea vontade' no processo extrativo (provavelmente em troca de que um super hiper mega ultra desejo de ser catequisada fosse atendido), foram substituídos pelo sistema monetário moderno e por nós, seres 'evoluídos e questionadores'. Piada. Na verdade, somos os mesmos otários que, se na época do descobrimento se satisfaziam com espelhos e miçangas, hoje conformam-se com a atuação vampiresca de uma minoria (tão nobre e altruísta quanto nossos antepassados navegadores) que não se cansa de inventar artifícios para fazer valer seus supostos privilégios. Pode o povo morrer de fome, mas foda-se, há outras prioridades para o dinheiro público. Ou não é para isso que serve a verba indenizatória?
A famigerada 'verba indenizatória' foi criada pelo então presidente da câmara Aécio Neves (quando se trata de poder, meus amigos, não tem PT, PC, PN, PJ ou PZ, à noite todos os gatos são pardos) em 2001,em um ato pernicioso que aumentou indiretamente o salário de deputados e senadores através de, digamos, uma forcinha extra que nem dava muito na cara. Bastava aos nobres deputados e senadores apresentar notas fiscais de suas despesas extras e tava tudo resolvido (só em 2004, quase R$ 1,5 milhão foi gasto em combustíveis e as notas dos 'supostos de gasolina' mantidas em sigilo). Não daria na cara, protestariam os mais cautos, se os filhos da puta que habitam essa vergonha que é o congresso não utilizassem a verba em suas próprias empresas (foi assim que começou a saga do Edmar safado Pereira, dono do castelo em Minas Gerais, usando a verba para pagar funcionários de sua própria empresa de segurança que nunca viram a cor do dinheiro. E o que aconteceu a esse nobre deputado? Nada, tá lá, rindo da nossa cara) ou pior, em empresas que nem existem, como noticiou a Folha esta semana (há que se louvar, e muito, o trabalho do jornalista Fernando Rodrigues). Ou seja, nego inventa uma despesa de uma empresa fantasma, que simplesmente NÃO EXISTE, e enfia a grana no bolso. E os indíos aqui, o que fazem? Observam a passagem dos navios portugueses carregados com o seu precioso pau brasil. E se bobear sorriem, embasbacados com os espelhinhos que ainda ostentam nas mãos. Não dá mais pra engolir.
Celso Pitta, um dos maiores ladrões de dinheiro público que esse país já teve, morreu outro dia (como disse meu pai, tamanha ironia: Pitta, o ex-prefeito negro, morreu no dia da consciência negra, o que obriga Maluf a morrer em um 1 de abril e Lula e em 1 de maio), e quisera eu que a prática exploratória, iniciada há mais de 500 anos, tivesse morrido com ele. O ex da Nicéia foi-se no ostracismo porque, depois de levantadas e comprovadas todas as denúncias contra sua pessoa, tentou, em vão e por duas vezes, se candidatar a deputado. Se fudeu, votação pífia. Quebrou a cara, foi preso de pijamas na operação Satiagraha e pagou com a própria vida. Ao menos serviu de exemplo.
Façamos pois do voto nossa arma, conscientizemos os da nossa tribo que ainda olham deslumbrados para os espelhos em suas mãos e quebremos, de uma vez por todas, o encanto, nem que seja necessário partí-los ao meio (os espelhos, lógico) e correr o risco de 7 anos de azar. Até porque, do jeito que está, corremos outro risco, o de seguir 7, 14, 21 e tantos outros anos olhandos as naus portuguesas se perderem felizes no horizonte...













29 de outubro de 2009

Produtividade x Assistencialismo

Que vivemos em um país marcado por abismos sociais e incongruências políticas não é nenhuma novidade. Que o país precisa, isto posto, de gente honesta que arregace as mangas e trabalhe no sentido de corrigir estas distorções, criando um padrão de sustentabilidade econômica baseado em potencial produtivo, também. Uma nação economicamente viável e pujante só se desenvolve quando a roda econômica gira com os recursos que ela mesma produz através do capital humano, alicerçado sobre investimentos, políticas de longo prazo e visão extemporânea. Costuma-se chamar a isso de produtividade, a mola mestra que gera riqueza e evolução.


Do outro lado está a prática assistencialista. Em um país como o nosso é difícil prescindir de tal instrumento, principalmente quando boa parte da população de baixa renda mal tem acesso a recursos básicos de educação, saneamento e saúde. A bem da verdade, a política do governo Lula, através do Bolsa Família, tem lá seus méritos quando retira parte das famílias que recebem assistência da total miséria. Mas ao mesmo tempo, cria um círculo vicioso cruel que beneficia, sobretudo, o próprio governo.




Presidente Vargas é um município no estado do Maranhão de 10.000 habitantes. Segundo Zé Neumane, da Pan, a população ativa é de 4 pessoas. Isso mesmo, 4 pessoas! Partindo-se do pressuposto que se trata de informação verdadeira, dada a credibilidade do jornalista, o número é assustador. Apenas 4 pessoas trabalham por lá, enquanto o resto da população vive do Bolsa Família. Sugere, a rigor, um mal estar sem precedentes, uma vez que narcotiza toda uma população, que naturalmente prefere ganhar um pouco a mais com o benefício do que se lançar no mercado de trabalho local, que não deve ser lá grande coisa. Não importa. É o princípio da produtividade que vai por água abaixo na ociosidade de quem encontra, em políticas como essa, um motivo para encostar o burro na sombra e não produzir. É o processo de geração de riqueza, ainda que em níveis ínfimos, totalmente estagnado e sem perspectivas. E quem ganha com isso?




Ganha a população, que sem grandes esforços mantém um padrão de vida (se é que isso lá é padrão) acima do que teria se optasse pelo trabalho. É mais cômodo, sem dúvida, mesmo que o processo produtivo seja estancado (e quem se importa?). Ganha o governo, que atrela votos que garantem reeleições através destas práticas, não muito distantes do 'pão e circo' romano. Perde o homem nestas circusntâncias, nas palavras do próprio Neumane, sua dignidade.




Povo bom, na ótica do governo, não é aquele que produz e questiona, fazendo valer seus direitos, mas aquele se ajoelha e agradece pelo pouco que tem.




Foto: ministério do desenvolvimento social e combate à fome

28 de agosto de 2009

O bolsa família e as eternas armadilhas do poder

Não sei dizer ao certo se foi meu senso crítico em relação à política que se tornou mais aguçado, de uns tempos pra cá, ou se foi a política que ganhou maior projeção ao alimentar personagens ainda mais escabrosos do que aqueles que já circulavam pelo meio no século passado. Provavelmente uma mescla de ambos, motivada pelo meu engajamento social e pela representatividade que o PT ganhou desde que Lula assumiu o poder, em 2003.

O idealismo (a palavra em si pressupõe um modelo perfeito de conduta) de nosso querido presidente, antes de assumir o poder, ajustava-se facilmente a qualquer partido oposicionista que via, no abismo social que tomava (e ainda toma) conta do país, a oportunidade para alçar-se ao poder. É o sistema de brechas: o marketeiro, por exemplo, encontra nos diferenciais do produto que cria, sejam eles imprescindíveis ou simplesmente fruto de sua estupidez, o vácuo necessário para entrar no mercado. Um pouco de publicidade e enganação e pronto, está feito. Na política não é diferente. Ao expor os contrates socias e a determinação em combatê-los, candidatos tornam-se paladinos da justiça em luta pela igualdade social (vale lembrar que, em política, a palavra de ordem não é justiça, mas sim interesse) e chegam ao mesmo vácuo, encontrando respaldo na população. O que todos, sem exceção, fazem depois de eleitos, sabemos, é uma outra história.




A trajetória de Lula é digna de louvor, como sempre pontuei. Sua determinação e o saco cheio da população em relação a políticos e partidos que prometiam mudanças e na prática pouco contribuiam, abriram o vácuo necessário para que o cargo máximo da república chegasse às sua mãos. Houve melhoras sim, principalmente no que diz respeito à inclusão social. Mas nosso 'querido líder' perdeu a chance histórica de mudar o sistema já tão viciado e dar início a uma nova era, como sempre propôs o partido. Caiu no mesmo erro que seus antecessores ao se equilibrar sobre os frágeis alicerces do interesse, em lugar da justiça, dando abrigo à falcatruas, alianças escusas e tantas outras ignomínias que só o poder é capaz de justificar. Ao mesmo tempo, garantiu munição de sobra a seus adversários: o escândalo dos atos secretos do senado e a saga Sarney serão exaustivamente explorados nas próximas eleições, assim como o encontro de Dilma e Lina, a absolvição de Palocci ou o inesquecível e inequívoco mensalão. Se tiverem efeito e encontrarem abrigo no povo, serão responsáveis por uma nova virada de poder e, uma vez mais, o início de um novo ciclo. Mas isso é o que menos importa. O que vale dizer, esteja quem estiver no comando, é que haverá sempre de ser consumido pelas eternas armadilhas do poder.




O vídeo abaixo ilustra com propriedade a prática. Nele, dois momentos de Lula: o primeiro na qualidade de presidente, defendendo com unhas e dentes o bolsa família e criticando os que a ela se opõe (chega a chamá-los de imbecis, termo pouco apropriado para um estadista); em outro, o Lula candidato, ainda sonhando com o poder, e que condenava qualquer forma de assistencialismo, comparável a Cabral e a distribuição de espelhos e bijouterias aos índios, em suas próprias palavras. Como diz o então candidato, uma manobra para manter as massas no lugar e angariar votos.
Será preciso dizer mais alguma coisa? Não é interessante perceber como uma simples opinião vira do avesso, tão rapidamente quanto o caminho do poder? Seja Lula, lagostim, camarão ou couve, brócolis ou mandioca. O processo é e será sempre o mesmo, recheado de manobras, desfaçatez, cinismo e descalabro. Aliados sem utilidade e com a capacidade de macular a imagem do partido ou a personificação do poder serão colocados à margem (Zé Dirceus, Silvinhos e Delúbios da vida), enquanto figuras insidiosas, antes adversárias, receberão o caloroso abraço como se nunca tivessem estado em lados opostos (Sarneys, Collors e Calheiros da mesma vida). No fundo, é tudo farinha do mesmo saco.




Encerro com uma frase pinçada do Blog do jornalista Adalberto Piotto: "E quando a inteligência - e honestidade intelectual - é atropelada pela esperteza, destrói-se biografias".







Crédito da imagem: Leonardo Ramalho

5 de julho de 2009

A longa distância da lei ao bom senso



A verdade é que lei e bom senso nem sempre falam a mesma língua. Basta um político metido a besta inventar uma estupidez qualquer que vire projeto de lei, seja aprovada pela maioria da câmara e pronto, o estrago está feito, seja em Brasília ou em Bom Jesus dos Perdões. O que ocorre, via de regra, é que estas invenções, motivadas por ideais oportunistas que em nada contribuem para o desenvolvimento social e econômico de uma comunidade, privilegia bolsos de pequenos grupos e dos próprios autores, destituídos de virtude ou ética. O CQC exibiu, na semana passada, matéria em Americana, interior de SP, em que duas ruas foram literalmente vendidas para uma empresa textil, se não me engano, em troca de uma ambulância, reforma de creche e otras cositas mas que é dever e responsabilidade do estado providenciar. Ora, as ruas foram fechadas e a comunidade local se revoltou porque simplesmente deixou de transitar por espaços que até então lhes eram convenientes, tendo que dar voltas para chegar onde precisavam. Para piorar, as contrapartidas da empresa, que sequer haviam saído do papel, só começaram a andar pela presença da reportagem. Onde estava o bom senso dos veradores da cidade se sob sua tutela encontra-se, em teoria, o bem estar de seus cidadãos? Quanto esses caras não devem ter recebido por fora para aprovar tamanho absurdo?

Seguindo o tema, sem dissociá-lo da última palavra do parágrafo acima, pense na seguinte situação: você está feliz da vida, celebrando seu casamento ao lado da família e dos amigos. A bebida rola solta, a música comanda o ritmo, a aura de felicidade que toma conta do ambiente é indescritível. E então aparece um fiscal e lhe autua em flagrante. O delito: violação de direitos autorais, mais especificamente das músicas que tocavam ao fundo!

Parece piada de mau gosto, mas não é. O Ecad, sigla para escritório central de arrecadação e distribuição, é uma sociedade civil que "zela" pelos direitos das músicas que são executadas pelo país em locais ou eventos públicos. Se o orgão entender que o uso da música possui fins lucrativos... Tá ferrado. Foi o que ocorreu em um casamento em Vila Velha, ES, em uma modesta recepção no salão do sindicato dos panificadores que tocava hinos evangélicos. Nos anos 60, Charles de Gaulle, presidente da França, disse que o Brasil não era um país sério. E quase 50 anos depois a frase continua cheia de sentido.

É certo que a pirataria e os downloads via internet reduziram os ganhos do mercado fonográfico, mas daí a compensar a perda com ridicularidades como essa é reforçar as palavras de De Gaulle. Um orgão fiscalizador que cria suas próprias leis e as faz cumprí-las, dentro do que é de seu interesse, apenas aumenta a distância sobre a qual eu me referia. Lá se vai o bom senso... Haveria como justificar de outra maneira, por exemplo, a autuação de uma barbearia no centro de São Paulo, que deve pagar direitos autorais pelos últimos 9 anos em que a TV ficou ligada? No noticiário, disseram os donos. Vinhetas e chamadas também valem, disseram os fiscias. R$ 12 mil de prejuízo. Socorro, De Gaulle!

Em tempo: no mês passado, a assembléia legislativa de São Paulo publicou um relatório sobre a CPI que investigava o Ecad. Conclusões: falsidade ideológica, sonegação fiscal, apropriação indébita, enriquecimento ilícito, formação de quadrilha e abuso do poder econômico. Que moral! Será que os caras estão querendo concorrer com o congresso?

Crédito da foto: desolate places

15 de junho de 2009

Batendo na mesma tecla 2


Tá, eu sei, dava pra dormir sem essa. Daqui a pouco dá meia-noite e eu, sem nada melhor pra escrever (sem nada melhor uma ova, tem um zilhão de coisas que seriam muito mais interessantes do que dar espaço a esse dinossauro senil, que não se cansa de ver seu nome jogado na sujeira), caio na besteira de falar novamente de bastidores da política. Fazer o que, né? Mas já que comecei, até o fim agora.
Pobre Sarnento. Um sujeito alçado à condição de presidente porque quis o destino que Tancredo Neves, então eleito, sucumbisse. Um pulha que teve as contas devassadas pela Polícia Federal (foi com a filhinha fofinha que a PF apreendeu um milhão de dólares em cash, não foi?), recebia auxílio moradia até outro dia, tinha um neto de 22 não concursado ganhando mais de 7 paus (precisa?) e teve o nome da sobrinha envolvido em troca de favores. Ah, era sobre isso mesmo que eu queria falar: Sarnento deu emprego a uma jovem no conselho editorial do senado, que preside desde 2002, através de um daqueles atos secretos. A menina é modelo e eu tenho certeza que, no dia em que literatura e passarela se misturarem (já checaram o perfil dele no orkut e, das 352 comunidades que participa, nenhuma é ligada à literatura), eu desfilo pelado na rampa do congressoo! Apenas para concluir, a menina é filha do ex-ministro das minas e energia Silas Rondeau, apadrinhado do digníssimo presidente do senadoe acusado de ter recebido propina de 100 paus da construtora Gautama.
Agora vou dormir mais tranquilo e prometo não falar mais dessa múmia. E nem adianta ficar rogando praga, o cara já foi eleito imortal pela ABL. Fui!

13 de junho de 2009

Batendo na mesma tecla...




É uma pena cair novamente na questão, poderia aproveitar este espaço para discorrer sobre outras amenidades. Mas isso incomoda de tal maneira que me vejo impelido a escrever sobre o assunto, uma vez mais falando do Sarnento, essa figura lúgubre e vampiresca que ainda percorre os corredores do congresso (presidente do Senado, só pode ser piada). E duas porradas de uma vez só: um neto de 22 anos, não concursado e que ocupava o cargo de secretário parlamentar, com salário de R$ 7,6 mil, e uma sobrinha, ao custo de R$ 4,6 mil ao estado, lotada no gabinete do senador Delcídio Amaral em Campo Grande (Delcídio diz que ela está lá, um assessor seu diz não conhecer a mulher. Twitei o Delcídio a respeito, quero ver o que ele responde, se é que político responde). Esses 'eventos' fizeram parte de atos que não foram publicados, como manda a lei, e que simplesmente passaram a vigorar. Que beleza! Descobriu-se entre esses atos secretos, por exemplo, que mulher ou marido de ex-parlamentar tem assistência odontológica e psicológica vitalícia. Socorro! Isso me lembra muito Luis XVI e sua corte: opulência, limites, revolução e guilhotina.
Mudanças já. Esses caras não podem simplesmente varrer a sujeira para debaixo do tapete e achar que tá tudo bem, que seremos as velhas e boas ovelhas de sempre. Minha campanha para lançar todo mundo na fogueira (e viva São João) segue mais viva do que nunca!


30 de maio de 2009

Para ser bandido neste país, não é preciso assaltar um banco

Há alguns dias os bancos privados, em benefício daqueles que buscam o financiamento da casa própria, aumentaram os prazos e reduziram as taxas de juros do crédito imobiliário. O congresso nacional (minúscula neles!), motivado talvez por crise de ciúmes ou algum outro complexo que o obrigue a estar sempre na crista da onda, fez o mesmo em benefício dos para-lamentares de plantão que parasitam na casa: regulamentou (não lembra reguLAMENTÁVEL?) o auxílio moradia, que dá margem aos dito cujos que possuem imóveis em Brasília a adicionar a seus vencimentos R$ 3.800,00 como se esse dinheiro pudesse ser 'aplicado' como tal. Segundo o senador mão santa, que culpa esses para-lamentares tem se dispõe de imóveis na capital do ócio e da bonança? Eles tem que ter os mesmos direitos daqueles que recebem o auxílio. Ao inferno, mão santa, você e toda essa corja que não cansa de tirar uma com a nossa cara como se isso fosse a coisa mais normal do mundo.




O auxílio moradia foi criado com o intuito de colaborar com os deputados de outros estados que, uma vez lotados em Brasília, precisariam alugar um imóvel (há, para isso, os chamados apartamentos funcionais, mas há mais para-lamentares do que apartamentos). Até aí tudo bem, nenhum mal nisso. O que veio à tona na semana passada, foi o caso de deputados que, depois de transferidos para apartamentos funcionais, continuaram recebendo o benefício. Fácil, né? Se faz de morto, finge que não é com ele e o dinheirinho continua pingando na conta (daí o título deste post. Roubar banco? Que nada! Vou é me candidatar a uma vaga no congresso!). O presidente do Senado, um tal de José Sarnento que pensa que é poeta, mora em imóvel próprio e recebe (ou recebia, já que estas sangrias são suspensas quando entra o dedo da imprensa) o tal auxílio. A princípio negou, depois disse que realmente estava ali, mas que ele não havia percebido (aliás, não duvido; com tanta grana que rola nos bastidores, é bem capaz que 7 ou 8 salários mínimos tenham passado desapercebido. Mas, se fosse para menos, nego já tinha colocado a boca no trombone...).


Quem precisa de auxílio moradia é quem tem que procurar abrigo público pra dormir no final do dia, quem mora sem condições de higiene ou quem abriga dez membros de uma mesma família em um quartinho. Esses caras que nós elegemos (wake up, todo mundo, hora de mudar mesmo!) não tem um pingo de dignidade, um mínimo de dor na consciência que os obrigue a ressarcir os cofres públicos. Eles haverão de fazê-lo, mas por pressão da imprensa que insiste em denunciá-los.


Minha proposta é muito simples: que tal o auxílio-sepultura? Damos um fim digno a todos eles e ainda temos o prazer de enterrá-los!



Obs.: vivos não, seria muita crueldade...



Crédito da foto: Dircinha






19 de maio de 2009

Chega de farra!


A imagem veio do Blog do Tas e resume o sentimento de indignação que toma conta deste país. É lamentável saber que temos um bando de párias que se apossaram do poder e que legislam em causa própria, individual ou corporativa. O deputado Sérgio Moraes, que outro dia soltou o ' me lixando para a opinião pública', apenas externou o sentimento que orienta seus comparsas de congresso. Alguns podem até ser bem-intencionados, mas uma vez no meio da sacanagem se deixam levar. Se até o Suplicy entrou na farra das passagens...

Vamos levantar essa bandeira e mostrar pra eles quem é que dá as cartas neste país. Eles estão lá para nos servir não para viver como parasitas às custas no nosso suor, principalmente quando tanta gente neste país passa fome, não tem acesso à saúde ou educação. E os malditos se refastelando por lá sem a menor cerimônia, comprando mansões e castelos, contratando domésticas e pagando celular de filho com dinheiro público. Vai ser debochado assim no inferno! Pode botar tudo abaixo e começar de novo, eu garanto! Candidato-me se preciso for, arregaço as mangas e tenho plena certeza que faço um trabalho justo, digno, honesto, mais barato e mil vezes melhor!!

Abaixo a classe política deste país. Vamos aproveitar que São João está aí e jogar todo mundo na fogueira!!!

8 de abril de 2009

Queda da Bastilha


Motivados pelas recentes declarações do senador Jarbas Vasconcelos sobre o manto corruptor que toma conta dos 3 poderes deste maltratado país, políticos de oposição resolveram criar a frente parlamentar anticorrupção. Corria o dia 3 de março passado quando o deputado federal Arnaldo Jardim, um dos líderes do movimento, ofereceu um jantar (alguma dúvida sobre quem pagou a boaida?) em seu apartamento para promovê-la.

Pouco mais de um mês depois, a Folha revela que o deputado Jardim mantinha, até a semana passada, uma doméstica às custas da câmara. Maria Helena de Jesus (que não tem nada a ver com a história, coitada) foi exonerada depois que veio à público o episódio do dep. Alberto Fraga, acusado do mesmo crime (opa! Pegaram o cara lá - deve ter pensado o nobre deputado - podem me pegar aqui!). A doméstica, paga com dinheiro público, trabalhou para Jardim durante 2 anos e meio.


Para! Para tudo! Se os paladinos da justiça são tão corruptos quant0 aqueles para quem apontam o dedo... Sujou. Mais do que coragem e audácia, parece que se faz necessarária a ganância, a falta de hombridade, a certeza da impunidade e uma cara de pau sem tamanho para ser um p0lític0 neste país. E não apenas para satisfazer suas próprias demandas, mas para usufruir de um direito que não possuem, imunes ao sofrimento de tantos desfav0rec id0s espalhad0s p0r aí.

Cristovam Buarque, que já foi candidato à presidência da república, sugeriu dias atrás que o fechamento do congresso fosse a plebiscito. Uma idéia louvável e dentro dos padrões da democracia, mas que seguramente daria poder de manobra à essa escória para ludibriar o povo e seguir vivendo às custas dele.

Eu, portanto, já sou mais radical. Não acredito em regeneração, quem tiver a oportunidade de ler O último mensageiro saberá entender os motivos que me levam a criar um final que, na prática, não passa de um começo. Aqui, então, não seria diferente: Bastilha neles! C0l0car tud0 abaixo, arregassar as mangas e começar de novo. Pelo fim dessa visão obtusa e corruptora, que não apenas faz mal uso do poder público, mas sangra a esperança de quem luta por uma vida mais digna.


Nem falta tanto assim para 14 de julho...

3 de abril de 2009

Comendo calabresa, arrotando caviar...



é preciso ser nenhum gênio para constatar a precariedade que toma conta dos serviços públicos deste país: um aparato de segurança ultrapassado, um sistema de transportes congestionado, a educação falida e a saúde pública na UTI. Todos sem planejamento e sem respiro, com profissionais mal remunerados e, ao final das contas, sem cumprir com os propósitos para o qual foram criados (ah, se o propósito era encher os bolsos de políticos corruptos e vagabundos - que redundância a minha - aí simpoderíamos dizer que tem a devida funcionalidade).






Ao mesmo tempo, Lula anuncia que irá emprestar dinheiro ao FMI. O mesmo Lula, que na era sindicalista, empunhava cartazes de 'Fora FMI!'. A diferença de lá para cá é que hoje todos os problemas do país estão sanados e tudo funciona perfeitamente bem. A saúde, aliás, está servindo como modelo para países como Canadá e Suécia reverem seus atuais sistema, já que comparados ao Brasil encontram-se anos luz atrasados (como bem coloca o Zé Simão, este é o país da piada pronta).






E não é que não haja coerência. É que ela simplesmente muda de posição dependendo do lado do poder em que você se encontra!





Crédito da charge: Menandro Ramos

30 de março de 2009

Déficit de consciência


Imaginemos, sob hípótese, a seguinte situação: uma tradicional família brasileira, moradora de uma metrópole qualquer, pai, mãe e quatro filhos. Por conta do dinheiro que recebem do aluguel de propriedades e de outras fontes indiretas de arrecadação, além dos negócios do pai (uma destilaria, herança de família, entre outros), levam uma vida tranquila e cheia de regalias. O pai, como homem de negócios e bom administrador, planeja o orçamento familiar, distribuindo a rechonchuda receita de acordo com as necessidades da família. O rateio é mais ou menos este:



  • Dois dos quatros filhos, além do pai e da mãe, possuem plano de saúde. Os outros dois, por questões de alocação de verba, não;


  • Apenas um dos filhos vai à escola; os outros três, por questões de alocação de verba, não.


  • Luz elétrica há no quarto do casal e em outro, onde três filhos dormem juntos. O caçula, por questões de alocação de verba, fica no escuro;


  • Saneamento básico é um privilégio do casal. Os filhos, por questões de alocação de verba, usam um buraco no mato, atrás da casa, para suas necessidades (embora achem divertido)


  • O pai destina parte da verba para divulgar seus negócios, em especial a destilaria . Gasta boa parte do orçamento em propaganda na TV, no rádio e na mídia impressa.


  • Como se não bastasse, para deleite de esportistas e atores em geral (que não tem nada a ver com a história), aplica parte da verba no patrocínio de times de futebol, duplas de volei de praia e uma infinidade de espetáculos. A mulher, diante da situação da família, já abriu a boca pra reclamar. Mas como foi esculhambada, sem direito a voto, preferiu não tocar mais no assunto.

E aí você se pergunta: pqp, que pai desnaturado é esse?


Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Entenda-se por pai o governo federal (minúscula neles!), representado pelo presidente da república. A família? Cada um dos 190 milhões de habitantes deste país, privilegiados ou não. O fato é que o governo federal, de acordo com matéria publicada na Folha de São Paulo de hoje pelo jornalista Fernando Rodrigues, gastou cerca de R$ 2 bilhões entre publicidade e patrocínios em 2008, mais ou menos fifty-fifty. Segundo Rodrigues, a verba de patrocínios, que em 2004 era de R$ 500 milhões, duplicou! O bolo publicitário é maior do que os gastos da Unilever na área, um dos maiores fabricantes de produtos de consumo do planeta e que depende da publicidade para se diferenciar de seus concorrentes e gerar vendas. "Um estado forte", disse o magnânimo presidente.


Ora, senhor Lula, um estado forte se faz com pessoas fortes! Fortes no cárater, na saúde, na sabedoria. É assim que se constrói uma nação, não com o blábláblá de quem precisa dizer o que faz (tudo bem, uma verbinha de publicidade a gente até aceita), sobretudo às custas de R$ 2 bilhões de reais que, se investidos em outros setores prioritários, seguramente trariam mais benefícios.


A massa agradece.


26 de março de 2009

300 de Esparta? Não. 378 do congresso, da esplanada dos ministérios...










Nestes meus quase 45 anos de vida não me lembro de ter estado sob processo, juridicamente falando. E não porque eu não tenha infringido a lei, cansei de fazê-lo travestido em rebelde sem causa. O que me diferencia em minhas singelas, selvagens e soturnas andanças na contramão da ordem é simples: nunca prejudiquei ninguém, física, moral ou economicamente falando.
Até onde a memória alcança, a família e os amigos gozam do mesmo status. Não há nada que aponte para um desvio de conduta que transgrida a lei (pausa para reflexão: sonegar imposto vale. Afinal de contas, pagar é o mesmo que pegar parte da comida que está no seu prato e delicadamente, com uma colher de prata, vertê-la na boca de um deputado gordo e seboso que fica sentado com o guardanapo de seda pendurado no pescoço e um sorriso de satisfação estampado na cara de pau. Quando este país passar por uma reforma fiscal séria e responsável eu serei o primeiro a pagar impostos com satisfação - hoje eu pago, embora puto - sabendo que a grana será utilizada para uma causa social e não para um deputado FDP pagar conta de celular de filha! ZAP neles! Sugiro que você volte ao início do parágrafo e pule o parênteses) ou que se reflita em danos ao próximo. Que fique claro que este é o meu caso em particular, até porque vivo cercado de pessoas de bem (que privilégio!), mas está longe de ser unanimidade nacional, principalmente onde deveria ser: o congresso e os ministérios.







Nada menos do que 378 processos tramitam no supremo contra deputados, senadores e, pasmem, ministros (escolhidos a dedo - rá, muito boa essa, deve ser com o dedo que está faltando - pelo próprio presidente da república, que vai ficar no minúsculo até essa merda mudar!). Aqueles que tem nas mãos o comando deste país, e consequentemente a responsabilidade de trabalhar em favor de uma população miserável e sofrida, são acusados de crimes contra a dministração pública - peculato, desvio de verbas - corrupção ativa e passiva, fraude em licitações, improbidade administrativa, crimes de responsabilidade, crimes eleitorias, crimes contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro e até crime contra o sistema financeiro nacional. Caraca, não parece que acabei de listar as traquinagens de Al Capone?








Seria cômico, não fosse trágico. São esses caras aí, esses parasitas que comandam nosso país, que sangram os cofres públicos como se estar no poder lhes desse acesso e direito (quem foi o FDP que inventou isso?). São personagens sem caráter que não se incomodam com a pobreza que os cerca, desde que os seus estejam 'de boa na lagoa', ainda que não tenha sido seu o suor a contribuir para isso. São dejetos humanos que se agarram ao sistema como um cancêr, simplesmente porque o traço cultural que comanda as ações nestas esferas, instituído em um passado longínquo, sempre foi esse. Abel, em uma das passagens do Mensageiro, faz a seguinte afirmativa:



- O poder é viciado, corruptor e quase sempre inatingível. A lei nunca vale para todos. É um traço cultural arraigado e destrutivo, a maneira mais abominável de se fazer uso do poder.










Fazendo contas: em outubro de 2008 havia um pilantra sob processo para cada quatro parlamentares. PQP, os caras tem a chave do cofre da nação! Que me desculpem os outros 3, que certamente não estão na mesma condição porque foram mais espertos e jogaram a merda pra debaixo do tapete antes que alguém percebesse (acaba de estourar o escândalo do caixa 2 da Camargo Correia, utilizado para doações em campanhas políticas), mas segue para vocês uma das maiores homenagens que uma banda já fez à imundície do congresso nacional. Bravo!Espero contribuir, assim como os Titãs, para que esta situação mude.












Alertar já é um bom começo.