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21 de fevereiro de 2011

O Último Mensageiro - Introdução


São Paulo me recebia com o costumeiro ar de indiferença em uma nebulosa manhã de novembro. A chuva pedia passagem em meio a tímidos raios de sol, que como pálidos frisos transpunham a barreira cristalina das nuvens em esforço inútil, desmanchando-se pelo caminho antes de atingir o solo. Quadro desolador para um mês de primavera, pensei, o sol a pino e o calor tranqüilizante teriam sido mais convenientes para a aterrissagem. Eu me perguntava que tipo de transtorno estávamos causando ao planeta para que reagisse de maneira tão contraditória, indignado que parecia estar diante do descaso e da insensatez humana. Que tecnologia maligna era essa, afinal, que insistia em justificar seus erros em nome do progresso, comprometendo a mais básica das estruturas? Haveria de existir, em sã consciência, algo mais importante do que a própria saúde da Terra?







Lancei um suspiro no vazio e desviei o olhar, deixando os pensamentos de lado. Passei a admirar o campo, o vasto território organizado traçado em perfeito contraste. E não é que sabíamos fazer coisas boas também? Um pouco de engenharia e uma boa dose de bom senso para desenhar o imenso tapete verde e suas nuances, tons claros e escuros que ganharam evidência, saltaram aos olhos e então cederam, até desaparecer por entre as nuvens. E foi quando tudo estremeceu. O avião pareceu perder altitude e os luminosos de apertar cintos se acenderam. Entrávamos em zona de turbulência e os golpes de ar passaram a chicotear o 747 para cima e para baixo como folha de papel. Engoli seco e virei para os lados em busca de um olhar sereno, um sorriso amigo ou qualquer sinal que pudesse me acalmar, mas a passividade era geral. Rostos se escondiam por trás de temores procurando disfarçar a agonia, provavelmente a mesma que eu sentia, camuflando as primeiras ondas de pânico que ameaçavam irromper. Isso ainda duraria intermináveis minutos, o alívio geral só viria depois que o avião baixasse por entre o mar de nuvens e novamente a terra se fizesse à vista.






Pouco depois entrávamos em procedimento de pouso em Cumbica e confesso que só senti o coração desacelerar quando a aeronave tocou a cabeceira da pista, deslizou mansamente sob a chuva e parou com elegância ao seu final. Desembarque, Polícia Federal, banheiro e bagagem. E a surpresa de encontrar Thais a minha espera. Um leve abraço e um beijo que durou poucos segundos a mais do que o usual foram as marcas do reencontro, nada de sorrisos ou traços de saudade. O olhar soberano ainda me fuzilou com indignação, deu meia volta e se afastou apressado pelo corredor. Um pequeno instante de hesitação e também saí, acelerando o passo para alcançá-la já quase do lado de fora. Lembro-me de ter sido preenchido por uma onda de calor, não soube precisar de onde vinha, que lambeu cada célula do meu corpo como se o transformasse no próprio inferno.






A considerar os eventos da ida até que foi um bom recomeço. Nove dias antes, Thais havia me acompanhado até o setor de embarque para ali, em meio à multidão, exaltada e fora de controle, vomitar uma montanha de insultos. De insano e débil mental a perdulário e outras expressões que prefiro não mencionar, havia jurado que aquele seria nosso último encontro. “Pode apostar sua alma nisso, Abel!”, dissera, o indicador colado ao meu nariz. Com todos os caprichos que o destino era capaz de nos reservar, lá estávamos juntos novamente, sem desculpas ou lamentos. O orgulho não lhe permitiria tomar a iniciativa, ela esperaria até o momento em que eu dissesse “Thais, se eu contar você não vai acreditar...”. Mas ele, o destino, julgou não ser necessário. Ela logo poderia constatar com seus próprios olhos.













* * *













Adoro chuva. Quando pequeno costumava compor rituais imaginários pelo quintal ladrilhado da casa em que morávamos na Vila Mariana, o rosto voltado para o céu em sinal de agradecimento e os olhos fechados em sonhos. Os pedacinhos vermelhos, espalhados pelo cimento e contrapostos a outros menores, negros, pareciam recebê-la como bênção, dilatando-se em sorrisos a cada pingo. O cheiro do chão úmido logo emergia e ainda hoje, quando a chuva beija o asfalto, me lembro daquela época como se fosse hoje. Por outro lado, detesto dirigir na chuva, recordação de uma experiência não muito feliz que tive aos seis ou sete anos quando meu pai, dirigindo seu Fiat azul em um dia como esse, perdeu o controle do carro e saiu capotando. Conotação de sonho, flashes do horror misturados ao alívio repentino de constatar, como por milagre, uma família escapando ilesa do desastre. Minha mãe rezava, agradecendo a Nossa Senhora Aparecida pela graça alcançada. Meu pai, desconsolado sobre os cotovelos no meio fio, chorava como se tivesse perdido tudo. Eu? Bem, diria que acusei o golpe. E de maneira tão intensa que me tornei incapaz de dirigir em dia de chuva, a lembrança irrompia e com ela todo o desconforto. Nestas condições preferia tomar um táxi ou nem mesmo sair de casa e, confesso, nunca me esforcei para que fosse diferente. Neste dia, porém, a costumeira sensação de descontrole não se fazia presente. Eu me sentia confiante - motivado sobretudo pelos acontecimentos que haviam me conduzido até ali – enquanto caminhava ao lado de Thais pelo estacionamento. Ela, irritada, buscava abrigo no guarda-chuva que fazia questão em não dividir comigo. Eu, alheio à raiva, atirava-me à água que trazia de volta a realidade do concreto urbano, escorrendo pelo rosto e deixando as lembranças de menino soprar em meu coração. Quando alcançamos o carro, minutos depois, Thais deu a volta pelo lado do passageiro e atirou as chaves na minha direção. E acho que foi só mais adiante, quando já estávamos na saída esperando a cancela se erguer, é que tive a sensação de que algo ruim aconteceria.






O silêncio reinava absoluto, vez ou outra interrompido pelo ecoar dos trovões. O horizonte que se erguia à nossa frente era denso e negro e inquieto como se a noite, intempestiva, abrisse caminho. Thais parecia hipnotizada pelos pingos cristalinos que se chocavam contra o pára-brisa provavelmente revivendo, em algum lugar da memória, lembranças de um passado comum não tão distante. Eu conduzia o veículo com surpreendente tranqüilidade, certo de que uma força maior me guiava na jornada. Mas nem por isso ousei desafiar o destino. Ao contrário. Louvei o mau tempo na expectativa de criar equilíbrio, e o que veio em resposta foi a completa falta dele. Nos segundos que se seguiram vi minha confiança interior ser varrida, milhões de pensamentos se chocando em desordem sob o efeito da adrenalina que me inundava. Senti a transformação do campo energético ao mesmo tempo em que os pneus perdiam aderência. Tentei diminuir, mas o celta não respondeu. A película de água que se instalou entre os pneus e o asfalto foi crescendo, crescendo, e então me dei conta que já não podia controlar mais nada. Thais virou-se para mim e pude perceber naquele par de olhinhos assustados uma expectativa tão ruim quanto a minha. O carro continuou em movimento por conta própria, ameaçou rodopiar e eu então tomei a única decisão que parecia estar ao meu alcance naquele momento: pisei no freio com força. O choque veio em seguida, a batida oca e surda que jogou o que quer que estivesse à nossa frente a uma curta distância mantendo-o ali, quase colado. Eu havia acertado alguma coisa, mas... O quê exatamente? O carro ainda percorreu alguns metros e depois parou enviesado como se tivesse perdido o fôlego. Thais estava bem, eu um pouco trêmulo e desorientado, a cabeça por entre as mãos ainda presas ao volante. E então descemos.














* * *













Não sei o que se passa na cabeça dessa gente. Amo meu país e meu povo, mas quando se trata de desrespeitar padrões parece que somos mesmo campeões. É por isso que eu acho que as coisas não funcionam muito bem por aqui. Existe um caos camuflado, um processo de sabotagem inconsciente que age por conta própria quando se trata de responsabilidade e bom senso. Afinal de contas, pode existir algo mais insano do que andar de bicicleta à beira da estrada em dia de dilúvio? Um garoto e seus... Não sei, treze anos, talvez, agora estirado no acostamento. Descalço e ensopado. Inconsciente, porém respirando, o sangue escorrendo pelo nariz e algumas escoriações no pescoço. Do ponto de ônibus que havia ficado para trás todos correram para o local, dois minutos depois chegava uma viatura da Polícia Rodoviária. Pronto, o circo estava armado. Eu? Completamente perdido, situações sem prévio aprendizado costumam me deixar apreensivo. Mesmo assim, e agindo por instinto, me agachei ao lado do garoto. Não saberia dizer exatamente para quê, mas eu achava que de algum ponto deveria partir. Dei-lhe duas batidinhas no rosto, não houve reação. O moleque ia morrer ali mesmo, pensei, enquanto eu conseguiria correr alguns metros até que a multidão em fúria me alcançasse e desse início ao linchamento.






“Fique calmo”. Foi o que me lembro de ter ouvido assim que minha consciência fez a conexão com o mundo real novamente. “Chegue para lá, quero ver o estado dele”. Dois policiais haviam rompido o cerco formado pela multidão e estavam agora junto a mim. “Estávamos parados do outro lado da pista, um pouco mais para trás, e vimos o que aconteceu”, o outro emendou. “Você perdeu o controle do carro e saiu derrapando, chegou no acostamento e atingiu a bicicleta”. Não acredito! “Ele deve ter batido a cabeça na queda. E olhe essa perna aqui, houve fratura”. Meu Deus, onde tudo isso vai acabar? “Vamos removê-lo para a viatura. Pegue o seu carro e nos siga até o hospital”. Hospital? Eu não sabia se respondia, acatava em silêncio ou pensava em coisa melhor. Na verdade não me sentia em condições de pensar, mas isso começou a mudar tão logo me virei na direção da massa. Foi como se cada músculo fizesse o movimento em câmera lenta, as batidas do meu coração se misturando às vozes e se perdendo ao longe enquanto os pingos da chuva explodiam em meu rosto, transformando-se em milhares de novos pingos. Estava vindo. Isolei meu pensamento, pisquei mais forte e saí de cena.






Havia chegado o momento.






Fechei os olhos e os ensinamentos maravilhosos que eu havia recebido dias antes afloraram. Estendi as mãos para frente e voltei-as para o céu – parecia não chover sobre elas – e logo a energia se fez presente. A luz azulada e serena, a mesma que eu tivera oportunidade de acessar durante a viagem, tremulava por entre meus dedos. Ninguém pareceu notar, nem mesmo Thais, que havia ficado para trás no meio da confusão. A multidão nem parecia estar mais ali. Eu não ouvia suas vozes, não via seus rostos. Minha atenção estava centrada apenas no garoto e tudo que fiz foi envolver a perna fraturada por entre minhas mãos no instante em que os policiais se preparavam para removê-lo. “O que você pensa que está fazendo?”, um deles se antecipou e me segurou pelo braço, ao mesmo tempo em que parecia não querer impedir. Mantive as mãos naquela posição por alguns segundos, guiando meu pensamento para que a luz penetrasse na região e corrigisse o estrago. A aplicação foi rápida e em seguida o garoto despertou feito um coelho assustado. Levantou-se ligeiro, sem se dar conta que era o centro das atenções de toda aquela multidão e, sem apresentar qualquer sinal da fratura, limpou o nariz, montou soberano em sua bicicleta e saiu pedalando em disparada sob a chuva. Todos permaneceram ali parados, incrédulos. Olhos vidrados, cinqüenta ou sessenta pares, voltados para minhas mãos. De suas bocas saíam murmúrios que eu não conseguia entender, lágrimas brotavam com emoção. Duas senhoras fecharam seus guarda-chuvas, ajoelharam-se sob o sinal da cruz e se puseram a rezar. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, o policial disse, a expressão de quem não podia acreditar no que havia acabado de presenciar. Desvencilhei-me com delicadeza, abri um sorriso cínico e corri para o lado, alcançando Thais e a empurrando para dentro do carro. “Vamos”, eu disse, “ainda não estou preparado para os autógrafos”. Como que negando a cena, ela balançava a cabeça de um lado a outro. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, repetiu, as palavras carregadas de um sarcasmo desnecessário. Detive-me à porta, fixei o olhar nela por sobre o ombro. “Claro que sei. Vamos sair logo daqui”.






O silêncio parecia ter costurado seu último suspiro. E a chuva, ao contrário do que eu imaginava, não havia cessado.




15 de dezembro de 2010

O ULTIMO MENSAGEIRO - SINOPSE



As perspectivas da Terra são sombrias, o homem insiste em não respeitar os limites da natureza e de seu semelhante. Logo, a reação virá de maneira desproporcional.







É pensando nisto que os mestres do universo convocam Abel Antunes. Abel passará por um processo de iniciação ritualística em Bali, na Indonésia, onde receberá os poderes para que sua missão se cumpra. A CIA dispõe de tecnologia para localizar os contatos e parte em sua captura, mobilizando seus agentes e o exército indonésio. O trabalho de Abel se desenrola em meio às constantes tentativas de eliminá-lo, até o surpreendente final em 2046.






Ensinamentos espirituais, tradições balinesas, origens da humanidade. Pink Floyd e o Mágico de Oz. Amor, magia e poder se misturam nesta grande aventura que certamente levará o homem a repensar suas atitudes em relação ao planeta e a forma como lida com ele.






Antes que seja tarde demais.




1 de dezembro de 2010

ELE VEM AÍ!

Por conta do lançamento do livro, previsto para o próximo dia 16 (Livraria da Vila, Rua Fradique Coutinho 915 a partir das 18hs00), me afastei durante o mês de novembro deste blog. Não dava pra ser diferente. Na reta final o trabalho de revisão é intenso, o material é examinado em detalhes para que não haja falhas na composição final. Desgastante, mas ao mesmo tempo enobrecedor.

Isso me faz lembrar um texto que escrevi no final de 2006, época em que o livro estava praticamente pronto (e que foi o primeiro publicado neste blog - 'Recomeços' - em fevereiro de 2009). Eu discorria sobre a validade de ter jogado tudo para o alto para me dedicar exclusivamente a ele, como isso tinha afetado minha vida e tudo mais. Nas minhas próprias palavras:

"Assim se fazem caminhos, criam-se lendas e heróis. Homens mais fortes e verdadeiros, obcecados pelo destino e carregando dentro de si a semente de um projeto transformador. É a palavra que se espalha em busca de realização, traduzida não apenas em valores de ordem pessoal, mas nos mais nobres atributos que direcionam o caminho do homem. Esta é a luz que me leva adiante.



Começar é difícil. Deixar para trás toda uma estrutura montada e aceita como verdadeira, a base de sustentação de toda uma vida, é um passo audacioso e arriscado. Acerca-se do lado aventureiro, do peso do incerto, e trás como consequência a instabilidade natural, o desequilíbrio, que só ocorre porque o ideal que luta dentro de você clama por vir à tona. Caso contrário, bastaria ficar quietinho no meu canto deixando a vida passar, consumida por bons e maus momentos, alheio às transformações globais que, em última instância, não me interessariam. Mas não é por isso que estou aqui.

Abracei meu ideal e pronto, não há nada que mude a história. Tive a energia necessária para fazê-lo, mas isso não faz de mim um mártir ou um alguém em busca de reconhecimento, não neste sentido. Quis que a vida tivesse como âncora meu ideal, transformado em palavras que circulam as esferas e fazem de mim seu instrumento. É para isso que criei "O último mensageiro", para que a palavra correta se faça ouvir. E fico me perguntando se valeu a pena...

Claro que valeu. São momentos de transição que colocam em jogo as escolhas, que suscitam dúvidas pelo vácuo que se abriu neste ínterim e que me inclinam a pensar em arrependimento. Depois passa, nada pode ser mais importante do que saber que minha obra pessoal, aquela que investi bons anos de meus estudos e valores, esteja finalmente pronta. O resto é pura consequência."
 
Valeu mesmo! É com o coração aberto e cheio de alegria que convido a todos para estarem presentes no dia 16, física ou espiritualmente, para comigo compartilhar desse momento tão especial. Até o final da semana terei pronto o convite, que será encaminhado a todos.
 
Como diz Hugo Almeida, com a licença do autor: Vida longa ao romance e à sua luz!!

27 de setembro de 2009

Ecos do Japi




Patty, se me permite, tomo a liberdade de fazer uso do título do seu blog , o Ecos do Japi (sigam o link e boa viagem), para este post. Lá estive no último sábado em companhia dos amigos Haroldo e Priscilla para uma gostosa caminhada em meio à mata, acompanhado também da Rosana e dos pequenos notáveis incansáveis João Pedro e Luiza. Além, é claro, da nossa querida guia Patty 'Salerosa' em pessoa.

A Serra do Japi é uma cadeia montahosa que se divide entre os municípios de Jundiaí, Cajamar, Pirapora do Bom Jesus e Cabreúva. Foi declarada reserva da Biosfera pela Unesco e tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico. "Um santuário", como diz a Patty em seu blog, que abriga natureza diversa e exuberante.
Recorro ao meu querido Abel Antunes, personagem de 'O último mensageiro', em uma de suas passagens à beira do rio com Marina, deslumbrada com a beleza do lugar em que se encontravam:



"– Que lugar maravilhoso é este?

À luz do dia, por entre o voar dos beija-flores e a passagem dos esquilos pelas árvores próximas ao rio, Marina estava fascinava com a beleza simples da Lumiar. Encontrara Abel recolhido junto à margem, exatamente no ponto mais alto antes da embocadura que levaria aos chalés.

– Já tomou seu café? – Ele perguntou.
– Saí de lá neste instante – ela apontou para a recepção. – Onde você estava?
– Fui dar uma volta, acabei de me acomodar aqui.

Na elevação em que se encontravam, podiam observar a parte mais larga do rio, embora fosse também a mais rasa, com pedras de tamanhos e formatos variados dispostas quase que em linha reta de uma margem à outra. A água circulava suavemente por entre elas em um esteio cristalino, sem muita velocidade.

– Não canso de vir para cá – Abel disse. – Abre meu espírito, me conecta com a natureza.
– Não é pra menos. Aqui dá pra esquecer da vida.
– Ao contrário, Marina. Aqui se resgata o verdadeiro valor da vida".

Eis aí o mesmo sentimento que me mobiliza em situações como essa: a simplicidade de estar conectado à natureza e seus elementos e o prazer de desfrutar da magia das pessoas, verdadeiro bálsamo para quem vive o dia a dia do concreto, da razão e do egocentrismo espalhado por todas as esferas. A alma agradece o privilégio!

Crédito da foto 'Borboletas':Priscilla P. Gutierrez

1 de agosto de 2009

Charak em 2 tempos





SP, 1969 ... ...RJ, 1974



"Tempo... O eterno desafio de a ele se opôr como se seu esgotamento fosse imediato. Transferimos o poder que nos torna senhores e escravos de sua natureza: quanto mais o temos, mais o ignoramos. E quando ele parece nem existir, imerso em sua condição ilusória, abre-se o atalho que recria a condição da vida".
(O último mensageiro)

Cris, suas fotos de infância foram inspiradoras, obrigado!



18 de julho de 2009

Um mundo de máscaras

Durante 8 anos o psicólogo social Fernando Braga da Costa, no intuito de concluir sua tese de mestrado, trabalhou como gari varrendo as ruas da USP. Segundo ele próprio, que diz ter vivido como um ser invisível no período,'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência'. Professores e colegas que o conheciam dos corredores da USP simplesmente o ignoravam, não pelo fato de ter assumido um papel menos considerável dentro da estrutura funcional da sociedade, mas porque ele havia deixado de existir. Aos olhos daqueles, é como se o trabalhador fosse mera peça motriz, alguém que exerce função tão básica que não merece a mesma consideração (como se isso pudesse variar de ser humano para ser humano de acordo com sua instrução, cultura e posição). ''Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste ou em um orelhão'.




Tamanho preconceito. Me lembro certa vez de ter ido visitar minha cunhada em seu escritório e um dos porteiros era um antigo funcionário do prédio onde eu tinha escritório (ambos condomínios eram administrados pela mesma empresa). Cumprimentei-o e na entrada e me lembro que ao sair, já na hora do almoço e em meio à multidão que deixava o prédio, estendi-lhe a mão e lhe desejei boa sorte. Para meu espanto, ouvi uma voz feminina que em tom suave fez o seguinte comentário: "Você viu que coisa mais ridícula? Um cara de terno dando a mão para o porteiro". Aquilo me pegou de tal forma (imagino que ela tenha pensado que passaria desapercebido no meio daquela gente toda) que no mesmo instante fui atrás e perguntei qual era o problema. A mulher (a princípio achei que se tratava de alguém mais velho, cheio de recalques e tal, mas devia ter seus 30 e poucos anos) simplesmente me ignorou, como se não tivesse sido ela a emitir o infeliz comentário. Senti que ela se incomodou com minha reação, mas alguém com este tipo de comportamento não precisa mais do que 30 segundos para se recompor e voltar a habitar seu mundinho...


A verdade é que experiências como estas reforçam os abismos sociais que criamos e fomentamos, sempre de olho no papel representativo que cada um desempenha. Se o cara é um deputado ou jogador de futebol, tapete vermelho nele. Mas se é gari ou porteiro... Vamos criando nossos guetos e neles nos fechando, não apenas para permanecer alheios à miséria que nos cerca, mas para não deixar que ela invada nosso dia a dia e não o polua visualmente.


Respeitar e interagir ainda é um exercício de difícil prática para a raça. Finalizo com as palavras de Abel para seu companheiro de viagem:
"Compartilhar o que temos de melhor, sem questionar o quanto isso nos afeta como indivíduos, é o caminho que abre as portas para o amor fraternal e solidário. É exatamente disto que este planeta precisa"!


Foto: Aplomb

11 de julho de 2009

Teoria de Gaia

Corria o ano de 1969 quando James Lovelock, pesquisador e ambientalista britânico, trouxe à luz sua Teoria de Gaia, também conhecida como Hipótese de Gaia. A idéia considera o planeta Terra como um imenso ser vivo que regula suas próprias funções e reage, sempre que necessário, às atitudes exploratórias sem limites do ser humano.

Vivemos um tempo de caos ambiental, onde a estabilidade do planeta é o que menos importa diante de interesses econômicos escusos. Nesse vale tudo, a queima de combustíveis fósseis como o carvão e o petróleo, além do desmatamento sem medidas, contribuem sistematicamente para o aquecimento do planeta, que cedo ou tarde perderá sua condição de 'habite-se' em áreas continentais. Esse é o preço que as gerações futuras haverão de pagar em nome da ganância e irresponsabilidade de quem hoje detém o poder político e os meios de produção. O processo é irreversível.


O mensageiro abre com o retorno de Abel ao Brasil, depois de sua estadia em Bali, e suas primeiras reflexões sobre o tema:

"Eu me perguntava que tipo de transtorno estávamos causando ao planeta para que reagisse de maneira tão contraditória, indignado que parecia estar diante do descaso e da insensatez humana. Que tecnologia maligna era essa, afinal, que insistia em justificar seus erros em nome do progresso, ainda que isso pudesse comprometer a mais básica das estruturas? Haveria mesmo de existir, em sã consciência, algo mais importante do que a própria saúde da Terra?"


A resposta, em tese, deveria ser simples e recheada de bom senso, mas estas são características que se afastam cada vez mais da natureza humana. Não há como negar que o futuro sombrio se aproxima e nós, conscientes, tentamos afastá-lo fazendo nossa parte. Se cada um fizesse a sua...

O vídeo abaixo, do grupo Greenpeace, corrobora a Teoria de Gaia e mostra uma animação muito interessante da 'respiração da Terra'. Pede preservação dos oceanos, já que deles advém metade do oxigênio que respiramos. O mundo é tão descabido que logo nem isso mais teremos, ou pior, seremos obrigados a pagar para tê-lo!


2 de julho de 2009

Andrew Hann em revista

O entrevistado desta semana no Blog do Mensageiro é Andrew Hann, o agente da CIA incubido de colocar um fim à trajetória de Abel Antunes. O pouco tempo de convívio entre os dois, entretanto, parece ter sido suficiente para que Hann colocasse em dúvida seus valores e sua ética, repensando a forma que vinha conduzindo sua vida até então. Abaixo, os principais trechos de sua entrevista:




BDM: Como foi seu primeiro contato com o Mensageiro?

AH: Através de uma foto. Eu havia recebido ordens de vir ao Brasil para investigar fenômenos de natureza desconhecida, ao menos essa foi a justificativa usada por meus superiores. Quando recebi o arquivo de Abel e a missão, percebi do que se tratava na verdade. Eu estava no país para sequestrar um cidadão brasileiro e entregá-lo ao exército americano em solo paraguaio.


BDM: E isso não o abalou? Não se sentiu traído?

AH: Por ter sido trazido ao Brasil sob um pretexto falso? Claro que sim. Foi como ser convocado para entrevistar Madre Teresa e se deparar com Fernandinho Beira Mar, entende? Obviamente fiz papel de idiota, mas nem por isso deixei de levar adiante a missão para a qual fui designado.


BDM: Entregar o mensageiro, você quer dizer. Como Judas.
AH: Como Judas? Eu não havia pensado nisso. Eu até o beijei, não é surreal?



BDM: Soa mais como traição.
AH: Pois aí é que você se engana. Desde a primeira vez que coloquei os olhos nele sabia que havia algo especial e tive minha confirmação depois, quando ele se livrou de todo o esquema de segurança armado a sua volta. Ambos sabíamos o que estava em jogo e a parcela de responsabilidade que cabia a cada um. Ele sabia o que estava fazendo, abriu meus olhos e cheguei à conclusão que entregá-lo, diante do que ele era capaz, não faria a menor diferença.


BDM: Você deve estar se referindo aos milagres, Abel falou sobre isso em nossa entrevista. Do que é que estamos falando exatamente?
AH: De poderes, cara, poderes que estão há anos luz do nosso entendimento. Seria inútil da minha parte explicar o que esses olhos viram, você pensaria que sou louco. Imagine, se até chuva o cara foi capaz de fazer parar...

BDM: Então você confirma a existência destes poderes?
AH: É como eu disse, falar de nada vale. Tenho certeza que, no devido tempo, você também será capaz de testemunhar o que esse homem é capaz de fazer. É sua energia, não sei... Embora estivéssemos em campos opostos, ele parecia harmonizar o ambiente e equilibrá-lo.


BDM: E isso se refletiu em alguma mudança em você? O Andrew Hann que entrou nessa história foi o mesmo que saiu?

AH: De maneira nenhuma, conviver com Abel fez toda a diferença. Passar esse tempo com ele foi a experiência mais enriquecedora da minha vida, pude rever meus valores e conceitos. Não fosse isso e eu provavelmente estaria em alguma sala em Langley, esperando pela próxima missão. Ao contrário, consegui estabelecer novos rumos pensando no que sou capaz de fazer pelo meu semelhante, na energia que conseguimos produzir quando trabalhamos em conjunto. E isso, agora percebo, é o que faz esta vida valer a pena. Uma vez ele me disse: siga seu instinto, seja aquilo que o seu coração lhe diz para ser. E é exatamente isso que estou fazendo.


Andrew Hann mudou sua história, mas contar aqui como ela acaba seria indelicado. Vida longa àqueles que encontram o caminho!

27 de junho de 2009

Abel Antunes em revista

Em sensacional furo de reportagem ;) , o Blog do Mensageiro conseguiu o que parecia ser impossível: entrevistar Abel Antunes, o herói errante que veio ao mundo com o intuito de salvá-lo e que acabou, por conta do destino, mimetizando-se à obra que lhe deu origem.

Abel nos recebeu em sua cabana às margens do rio Marambaia, onde vive sozinho e isolado do resto do mundo. "Uma prática que me resguarda e me devolve a serenidade que preciso", diz ele. A seguir, os principais trechos de sua entrevista:

BDM: você diz manter contato com seres extraterrestres que o orientam para o alinhamento da raça humana no planeta Terra. Em que consiste esse alinhamento?

AA: consiste em olhar para o verdadeiro propósito humano, que é dar abrigo ao seu semelhante e criar uma sociedade mais justa e equilibrada, onde todos tenham a possibilidade de levar uma vida digna. É para isso que estamos aqui, não para a trajetória insana desenhada a base de posse e individualismo.
BDM: e como você pretende fazer isso?

AA: através da palavra. Os meios de comunicação e as mídias sociais, hoje a pleno vapor, haverão de funcionar como facilitadores neste sentido. Mas isso não será tudo. Haverá um trabalho de mobilização, de engajamento, em que cada vez mais pessoas, a par da nova realidade, tenderão a participar. Em pouco tempo seremos milhões lutando pela mais nobre das causas: a salvação do planeta e das raças que o habitam.
BDM: não soa um pouco utópico?
AA: soa, sem dúvida. Estivesse eu no seu lugar e pensaria o mesmo. Foi pensando nisso que meus mestres inverteram o conceito do 'crer para ver', como prega a maioria das religiões. Se você quer um milagre, acredite nele, não é isso? Pois agora passaremos a 'ver para crer'. Os milagres acontecerão e será impossível negá-los, sera impossível não acreditar.
BDM: de que tipo de milagres estamos falando?
AA: Neste momento não posso adiantar nada. A única coisa que posso dizer é que vocês serão testemunhas de um novo tempo .
BDM: da maneira que você coloca, falando em milagres e redenção sob sua responsabilidade, faz parecer que se trata da volta do messias. É sobre isso que estamos falando? Você se considera o novo messias?
AA: não é uma questão de eu me considerar messias ou não, até porque essa não é uma opção minha. Fui escolhido para essa tarefa porque faço parte de um projeto que se iniciou há milhares de anos com o patriarca Abraão, passou pelos reis de Israel e Jesus Cristo até chegar aos dias de hoje. Entende o que quero dizer? Não é uma opção, é algo traçado como um plano. A diferença é que desta vez, como nunca aconteceu antes, o povo lá de cima está apostando todas suas fichas.
BDM: e por que?
AA: porque esta é a última alternativa que resta. A humanidade se afunda em guerras e destruição, o planeta ruma para um desastre climático de proporções inimagináveis. Ao homem foram dadas diversas oportunidades para que o processo fosse revisto, mas em nenhuma delas chegou-se a uma solução a contento. Até porque, se isso tivesse acontecido, não estaríamos neste momento discutindo o assunto. A verdade é que não é mais possível relegar apenas ao homem a tarefa de mudar. Ele está por demais preocupado com seu próprio umbigo para avaliar o que está acontecendo.
BDM: e é nesse contexto que você se insere, a voz que salvará o planeta da sua derradeira destruição.
AA: isso mesmo.
BDM: você já ouviu falar de Inri Cristo? Não teme se expor ao ridículo diante desta situação, exatamente como ocorre com ele?
AA: como eu disse, contra fatos não há argumentos. Não pretendo me expor pela palavra, a palavra será um instrumento. Minha marca serão os fatos, e que disso ninguém duvide.
BDM: nesse caso posso dormir mais tranquilo, pensando que haverá alguém com poderes especiais para reverter o processo de destruição ao qual o planeta está submetido.
AA: deixando o sarcasmo de lado, eu diria que não é o momento de recostar-se tranquilamente e esperar que as coisas mudem. Todos devem contribuir para o processo, todos terão sua parcela de responsabilidade. Ainda que eu dê o impulso inicial necessário, nada acontecerá sem o envolvimento de todos.
BDM: nesse caso, podemos acreditar que ainda há espaço para a salvação.
AA: há, mas não da maneira como vocês imaginam. Lembre-se que todo processo de transição envolve perdas, principalmente quando já se atingiu um estado de exaustão avançado. Vencer esta batalha não significará devolver a Terra ao formato que conhecemos, com nossos preceitos e padrões viciados. Vencer, a despeito da nova realidade que se estabelecerá, será devolver à raça o caráter humano para que leis de justiça e equilíbrio prevaleçam. Só assim terá sequência o processo que culmina, em sua última etapa, com o amor incondicional da humanidade por si mesma, o planeta em que vive e todas as espécies que nele habitam. Que a luz sempre esteja com vocês.
Nota do blog: ao proferir sua última frase, Abel Antunes simplesmente desapareceu diante de nossa reportagem sem deixar qualquer vestígio. Esperamos, em nova oportunidade, poder dar sequência à entrevista.Agradecemos a Abel por sua disposição e desejamos sorte em sua empreitada.

11 de junho de 2009

Dark side of the rainbow

O título é fruto da mescla entre 'Dark side of the moon' - disco do Pink Floyd gravado em 1973 e uma das maiores pérolas do rock de todos os tempos - e da canção 'Over the rainbow' - da trilha sonora do filme 'O mágico de Oz' (1939), interpretada por Judy Garland - e carrega uma daquelas lendas urbanas que ninguém jamais conseguiu provar: a de que o Dark side teria sido gravado tendo como pano de fundo o filme, tamanha a sincronia existente entre ambos.

Waters, Gilmour e cia. nunca deram crédito à versão. Alan Parsons, engenheiro responsável pelo disco, afirmou que o assunto tampouco foi mencionado durante as gravações. O fato, de qualquer maneira, é que as duas obras guardam notáveis coincidências, o que na pior das hipóteses leva ao conceito da sincronicidade criado por Jung.

Em O último mensageiro fiz alusão ao tema da seguinte maneira:

Bizarro. Curioso, para dizer o mínimo. Não se sabe ao certo de onde surgiu a composição, mas o duo O mágico de Oz, da obra de Frank Baum, produzido em 1939, e Dark side of the moon, álbum da banda inglesa Pink Floyd, gravado em 1973, compunham um continum intrigante. Sobrepostos, acionando-se a trilha do disco a partir do terceiro rugido do leão da Metro-Goldwyn-Mayer no filme, era possível observar uma sincronia incomum, como se as faixas houvessem sido compostas sobre os movimentos dos personagens. A começar pelo triângulo pendurado na árvore quando Dorothy, vivida por Judy Garland, se dirigia ao rancho dos tios, e que guardava incrível semelhança com o prisma da capa do álbum. Ou então seu encontro com o espantalho a caminho da terra de Oz, justamente quando a faixa “Brain damage”¹¹ ganhava seus primeiros acordes. A sra. Gulch em sua bicicleta e os sinos introdutórios de “Time”¹¹, o exército dos Munchkins marchando em perfeito compasso com as batidas de “Money”¹¹. Coincidências – ou evidências – que assumiam papel menor quando comparadas ao espírito que estas duas notáveis produções tinham sido capazes de criar: a busca pela consciência, fé e compaixão, de um lado, e a obra de rara inspiração e relação visceral com o espírito criador do outro.
Hann não teve o menor trabalho em conter o sono. Viu quando Dorothy perdeu o equilíbrio sobre a cerca e caiu, a voz suave de David Gilmour a expressar “And balanced on the biggest wave, you race towards an early grave” em “Breathe”. Ele sabia que Judy Garland havia morrido prematuramente aos quarenta e sete anos, vítima de overdose de barbitúricos, e foi ali que se convenceu que a ligação entre filme e banda não era simples obra do acaso...


Para finalizar, um trecho do filme em sincronia com 'Us and Them' (que já foi tema de um outro post). Interessante notar o movimento das três bailarinas e, principalmente, dos três carequinhas, cujas pernas se movimentam em linha com as batidas da música. Qunado David Gilmour entoa 'Black', o filme fecha em close sobre a bruxa; quando é 'and blue', a cena corta na sequência para a fada.

Sincronias à parte, ouvir 'Us and Them' é um exercício de prazer que se renova há 36 anos!





27 de maio de 2009

Mensagem do além


“As perspectivas do planeta são sombrias. O plano terrestre tem acumulado conhecimento ao longo dos séculos capaz de destruir a si mesmo milhares e milhares de vezes, seja por seu caráter bélico, seja pelo descaso para com a Mãe Terra. Este tem sido o curso do ser humano ao desenvolver tecnologia mortífera em busca de poder e riqueza, minando as resistências do planeta sem piedade. Investem seus bilhões em armamentos e em poluentes, financiam terroristas e alimentam traficantes. Geram uma espiral sem fim que a cada período ceifa milhões de vidas, muitas delas ainda perdidas pelo espaço e que seguem alimentando o bolo da discórdia, incapazes que são de reconhecer seu próprio caminho. O equilíbrio de todo o universo é então afetado. Seus valores são fúteis e limitados, baseiam-se no acúmulo de riquezas materiais que não deixam espaço para a evolução espiritual. Sua insegurança não tem preço. Em um dia, é o suor honesto do trabalho. No outro, o desvio de recursos destinados a saciar a fome de uma comunidade carente ou uma conspiração assassina. É esse desequilíbrio, essa busca cega e irracional que deve ser contida, esse individualismo podre que causa tamanha desarmonia e leva à destruição. Neros, Hitlers e Stalins seguem disfarçados entre vocês, semeando desunião e o ganho infindável a qualquer custo. Estes, que pregam o poder e dão as costas a seus irmãos menos privilegiados! Estes, que roubam, que ferem e que matam! São estes que a partir de hoje terão seus dias contados! Não negamos a ninguém, por pior que seja sua condição evolutiva, o direito à felicidade. Para vocês, este é o princípio em que impera o materialismo. Que assim seja, desde que o princípio se torne coletivo e comece na ação, no pensamento racional. Pensando como gota não se conquista oceanos. Gerações deverão ser treinadas para que, intuitivamente, este estágio seja alcançado".

As palavras proferidas por Zok, líder maior dos seres do espaço, encontram Abel pela primeira vez em solo indonésio, terra para a qual partiu seguindo instruções de seu mentor. É a partir deste momento que nosso herói será agraciado com os poderes que lhe permitirão retirar o ser humano da letargia irresponsável em que se encontra.




Não sei exatamente qual é a visão de quem está do lado de fora do planeta, mas desconfio que não seja muito diferente disso que aí está. Que tipo de referência somos, afinal? De que forma contribuímos para a evolução, nossa e de nossos semelhantes? Estamos alinhados com os pressupostos de comunhão que banham outros pontos do universo?




Não há, seguramente, uma perspectiva mais otimista neste sentido. Mas há, ainda, a esperança de que isso mude. Façamos nosso papel!




Crédito da foto: Heaven´s gate

20 de maio de 2009

O poder da religião


Diz a sabedoria popular que futebol, religião e política não se discutem. Tampouco vou me dar ao trabalho de fazê-lo, acredito que dentro destes 3 campos cada um tenha suas próprias crenças e, via de regra, as defenda com unhas e dentes, quase que cegado por suas convicções. O que farei aqui será simplesmente expor as minhas.

O caráter religioso - e vou me ater aqui aos povos do livro, judeus e cristãos; embora tenha grande apreço pelas filosofias orientais, não me sinto apto a incluí-las nestes comentários - pode ser dissecado de duas maneiras, lembrando que não estamos falando de um tratado filosófico nem de um estudo em profundidade, mas simplesmente das impressões de quem há anos convive com isso:


1. O caminho da fé, que desenvolve um mecanismo interno onde o sentimento de pertencer, coletivamente falando, é acionado.


2. O caminho da doutrina, que subjulga a essência da fé e do divino aos interesses humanos.



Olhemos pelo primeiro aspecto. Minha amiga Priscilla postou há questão de algumas horas em seu blog, olhos verdes, 'Deus, pastor dos homens', onde usa como referência o Salmo 22 e o poder mágico que este exerce sobre o espírito. Aquieta a alma, eleva a vibração, cria a perspectiva de luz onde ela não existe! Eis aqui um exemplo claro do serviço que a religião deve prestar ao homem (nunca ao contrário). Nas palavras da própria Priscilla: "Se não fosse pelo amor e pela fé, o que moveria todos os dias as pessoas aos seus trabalhos e desafios a vencer?" - Divino! Criamos nestes movimentos nossa conexão com a essência através da fé, da oração, do sentimento que se abre em busca de algo maior e que não precisa, necessariamente, estar contextualizado em nenhuma religião. Vale para todos: judeus, cristãos, muçulmanos, budistas, taoístas, masoquistas e quantos istas sejam necessários para se irmanar e criar esta conexão, sem se sobrepor ou sem tirar do indivíduo sua capacidade de discernimento. A partir do momento em que isso ocorre... Bem, é aí que as coisas se complicam. Por tabela, caímos no segundo aspecto.


A religião, na medida em que se afasta do tênue fio de esperança que representa o encontro do homem com Deus e que em última instância resultou em sua criação, não vai além de controle e manipulação, como se houvesse sido criada com este propósito. São homens subjulgando homens em nome de uma causa maior, que na prática perdeu sua razão de ser. A não ser que vislumbremos como correto padre que excomunga médico que faz aborto em menina de 12 anos, maquininhas de cartão de crédito que correm por entre fiéis para arrecadação de dinheiro (depois a bispa Sônia manda um postal de Miami!) ou judeus ortodoxos que tiveram que ser arrastados de suas casas construídas em território ocupado (leia-se palestino) quando o exército de Israel retirou-os à força, já que depender da boa vontade deles para dividir espaço com outros seres humanos, que não judeus, dentro de um território que por 'intervenção divina' é exclusivamente deles (ou nosso, já que circuncisado fui aos 7 dias ou algo assim, não me lembro mais), é algo impensável. E assim caminha a humanidade: eles te dizem o que fazer e o que não fazer, te dão obrigações e responsabilidades e pasmem, com tudo isso você ainda corre o risco de não ir para o céu. Os pressupostos do item 1 se foram. A essência, é óbvio, se perdeu.



Aqui, trecho do mensageiro onde Abel (eu te amo, cara, você é meu herói!) expõe a questão ao entrar em embate com um padre:



– Espere um momento – o padre Eliseu interveio. – Acho que temos questões mais preemente a resolver. Esse homem se intitula descendente de Jesus Cristo, um verdadeiro ultraje à religião!
– E por que, padre? – Abel o desafiou. – Porque a religião reconhece neste homem o espírito divino, porém nega sua condição humana? Cria a simbologia capaz de atrelar milhões à causa, sem deixar transparecer a verdade?
– Cuidado, meu rapaz, você está indo longe demais.
– Por questionar o papel da religião? Por ver nela um instrumento de controle que preserva suas “verdades”, que estabelece seus códigos e conjuga o poder? Ou o senhor vai me dizer que a Igreja não se prestou a este papel através dos séculos?
– Herege!
– Ora, padre, não sejamos hipócritas! Não posso negar que há um comprometimento espiritual neste caminho, principalmente daqueles que abraçam a fé com abnegação, mas é ingenuidade pensar no papel meramente religioso da Igreja. Ou o senhor acredita, por exemplo, que o espírito que incitou as cruzadas e a retomada da Terra Santa das mãos dos “infiéis” muçulmanos era apenas religioso? Os cavaleiros francos precisavam de ação para bancar suas fileiras e uma jornada ao santo sepulcro abria esta possibilidade, novas conquistas e principalmente novas propriedades. O senhor entende o que quero dizer, não? Suas riquezas aumentariam, e o que era mais importante, sem colocar em risco as da Igreja. Não sejamos ingênuos, padre, a religião sempre teve seus interesses.
– Se o senhor insistir em denegrir...

– Não se trata de denegrir – Abel interrompeu com a voz firme – mas de se fazer enxergar. A manipulação não é privilégio exclusivo da sua religião, padre. Todas, em maior ou menor grau, se afiguram como meio de disseminar o medo e manter o controle. Há uma certa validade, como eu disse, pois de alguma maneira estabelecem relação com o que é divino. Mas a verdade é que se perderam no tempo, cederam aos apelos dos mais poderosos. A quem Cristo incomodava ao criticar os preceitos de sua época, senão aos sacerdotes do templo? Não foram eles que apelaram aos romanos?
– O senhor está colocando em xeque o trabalho de Nosso Senhor? Seus ensinamentos?
– Claro que não, padre. Não questiono o papel de Jesus, mas sim o uso que se fez dele. Jesus foi um mensageiro enviado a este planeta para trabalho similar ao meu, apenas sob diferentes condições. A deturpação de sua obra é o que mantém o homem sob controle e afastado da verdade. A religião, senhoras e senhores, não atende a outros interesses que não aos do próprio homem!



Fim de papo. Sou torcedor do tricolor paulista de coração, quero mandar tudo que é político pra fogueira (podem me chamar de Torquemada que será um prazer) e essa é minha visão do quanto a essência religiosa foi deturpada. Em meu íntimo rezo, prezo e apelo. Não como judeu de origem, mas como um cidadão do universo em busca de melhores dias para todos que estão à minha volta, sem olhos para raça, credo ou cor. E como diria o grande e não menos amável Ricardo Calmon, VIVER É PURA MAGIA!



Crédito da imagem: Rob Brocoli ( o cara deve ser vegetariano)

13 de maio de 2009

Paz na terra aos... A quem mesmo?


Seria cômico, não fosse trágico. "Vejo um tempo em que a paz deverá reinar ao redor do mundo", diz a vidente. "Aposto que as pessoas estão felizes", responde o cavaleiro. "Não vejo pessoas", rebate ela.

A história da civilização humana sempre foi marcada por guerras, barbáries, genocídios e tantas outras atrocidades que, independentemente da nomenclatura que se use, carregam dentro de si o estigma do mal. Antes de respeitar seu semelhante, o homem opta por fazer valer seus desejos, entra em conflito quando não há acordo e estabelece, na ponta de uma arma, o termômetro para suas imposições. A lei do mais forte, como no mundo animal, prevalece.

Os recentes acontecimentos no Sri Lanka, ilha próxima a Índia que já foi colônia britânica, ilustram bem o fato. O país vive em guerra civil há 26 anos, contabilizando mais de 100 mil mortos no conflito. As forças do governo encurrralaram os tigres tâmeis, organização considerada terrorista pela ONU e que busca a independência de sua região, no extremo norte da ilha. Até aí, o conflito de etnias, religiões e o K7A4, que no final das contas se traduzem no conflito pela terra e nada mais, não representa nada de novo. O ponto é a atitude do governo cingales, que a fim de exterminar os rebeldes lançou ataques contra um hospital da região, mesmo sabendo que no local encontravam-se centenas de feridos. Resultado: mais de 50 mortos. Para fazer valer seu poderio o estado sacrifica peões, como em um tabuleiro de xadrez, e atinge o resultado que deseja. Não há expressão mais desconcertante do caráter humano do que esta.

Em 'O mensageiro', Uriah, o anjo da história, dá a seguinte explicação a Abel em um passeio por Ulu Watu:

– Miséria, sofrimento, guerras. É possível pensar em solução mais estúpida para resolver uma discórdia? A guerra é a prova definitiva de que vocês, humanos, não sabem usar seu principal recurso, o cérebro. Em seu lugar usam a força das armas. Mas se serve de consolo, meu caro, não se trata de um privilégio de sua raça. A guerra existe em todo lugar porque onde há luz há trevas, e estas forças estarão sempre travando suas batalhas universo afora. No caso específico deste planeta, porém, o problema não é a guerra em si, mas o processo que ela desencadeia. O que era para ser um conflito de interesses se transforma em movimento generalizado onde a mente pára e o indivíduo age como se estivesse tomado pela loucura. Basta olhar para os massacres a que foram submetidas populações indefesas ao longo da história: a desintegração da Iugoslávia, os curdos no Iraque, o Sudão. As forças da escuridão agem sem discernimento, filho. São movidas pelo impulso, pelo descontrole que avança sem medir as conseqüências.


Talvez seja necessário, como prevê a vidente, varrer a sujeira que corrói o mundo e começar tudo de novo (como Einstein já disse, "não sei quais armas serão usadas na 3a. guerra mundial, mas a 4a. seguramente será travada com paus e pedras") . Tenho minhas impressões a respeito, mas colocá-las aqui seria tirar a surpresa do final do livro. Vamos por partes!

9 de maio de 2009

Introdução de 'O último mensageiro'




Disponibilizo aqui as primeiras páginas do mensageiro. Sintam-se a vontade para ler, opinar, criticar, enfim, contribuir se achar pertinente, o processo de troca é sempre produtivo e bem-vindo. Esta primeira passagem se inicia com a chegada de Abel a São Paulo depois de sua jornada de iniciação. Boa leitura!


São Paulo me recebia com o costumeiro ar de indiferença em uma nebulosa manhã de novembro. A chuva pedia passagem, mas era possível notar tímidos raios de sol, que como pálidos frisos ultrapassavam a barreira das nuvens na tentativa de atingir o solo em esforço inútil, desmanchando-se pelo caminho sem chegar a lugar algum.Quadro desolador para um mês de primavera, pensei, o sol a pino e o calor tranqüilizante teriam sido muito mais convenientes para a aterrissagem. Eu me perguntava que tipo de transtorno estávamos causando ao planeta para que reagisse de maneira tão contraditória, indignado que parecia estar diante do descaso e da insensatez humana. Que tecnologia maligna era essa, afinal, que insistia em justificar seus erros em nome do progresso, ainda que isso pudesse comprometer a mais básica das estruturas? Haveria mesmo de existir, em sã consciência, algo mais importante do que a própria saúde da Terra?

Lancei um suspiro no vazio e desviei o olhar, procurando deixar os pensamentos de lado. Passei a admirar o campo, o vasto território organizado traçado em perfeito contraste. E não é que sabíamos fazer coisas boas também? Um pouco de engenharia e uma boa dose de bom senso para desenhar o imenso tapete verde e suas nuances, tons claros e escuros que ganharam evidência, saltaram aos olhos e então cederam, até desaparecer por entre as nuvens. E foi quando tudo estremeceu. O avião pareceu perder altitude e os luminosos de apertar cintos se acenderam. Entrávamos em zona de turbulência e os golpes de ar passaram a chicotear o 747 para cima e para baixo como folha de papel. Engoli seco e virei para os lados em busca de um olhar sereno, um sorriso amigo ou qualquer outro sinal que pudesse me acalmar, mas a passividade era geral. Rostos se escondiam por trás de temores procurando disfarçar a agonia, provavelmente a mesma que eu sentia, camuflando as primeiras ondas de pânico que ameaçavam irromper. Isso ainda duraria intermináveis minutos, o alívio geral só viria depois que o avião baixasse por entre o mar de nuvens e novamente a terra se fizesse à vista.

Pouco depois entrávamos em procedimento de pouso em Cumbica e confesso que só senti o coração desacelerar quando a aeronave tocou a cabeceira da pista, deslizou mansamente sob a chuva e parou com elegância ao seu final. Desembarque, Polícia Federal, banheiro e bagagem. E a surpresa de encontrar Thais a minha espera. Um leve abraço e um beijo que durou poucos segundos a mais do que o usual foram as marcas do reencontro, nada de sorrisos ou traços de saudade. O olhar soberano ainda me fuzilou com indignação, deu meia volta e se afastou apressado pelo corredor. Um pequeno instante de hesitação e também saí, acelerando o passo para alcançá-la já quase do lado de fora. Lembro-me de ter sido preenchido por uma onda de calor, não soube precisar de onde vinha, que lambeu cada célula do meu corpo como se o transformasse no próprio inferno.

A considerar os eventos da ida até que foi um bom recomeço. Nove dias antes, Thais havia me acompanhado até o setor de embarque para ali, em meio à multidão, exaltada e fora de controle, vomitar uma montanha de insultos. De insano e débil mental a perdulário e outras expressões que prefiro não mencionar, havia jurado que aquele seria nosso último encontro. “Pode apostar sua alma nisso, Abel!”, dissera, o indicador colado ao meu nariz. Com todos os caprichos que o destino era capaz de nos reservar, lá estávamos juntos novamente, sem desculpas ou lamentos. O orgulho não lhe permitiria tomar a iniciativa, ela esperaria até o momento em que eu dissesse “Thais, se eu contar você não vai acreditar...”. Mas ele, o destino, julgou não ser necessário. Ela logo poderia constatar com seus próprios olhos.



* * *



Adoro chuva. Quando pequeno costumava compor rituais imaginários pelo quintal ladrilhado da casa em que morávamos na Vila Mariana, o rosto voltado para o céu em sinal de agradecimento e os olhos fechados em sonhos. Os pedacinhos vermelhos, espalhados pelo cimento e contrapostos a outros menores, negros, pareciam recebê-la como bênção, dilatando-se em sorrisos a cada pingo. O cheiro do chão úmido logo emergia e ainda hoje, quando a chuva beija o asfalto, me lembro daquela época como se fosse hoje. Por outro lado, detesto dirigir na chuva, recordação de uma experiência não muito feliz que tive aos seis ou sete anos quando meu pai, dirigindo seu Fiat azul em um dia como esse, perdeu o controle do carro e saiu capotando. Conotação de sonho, flashes do horror misturados ao alívio repentino de constatar, como por milagre, uma família escapando ilesa do desastre. Minha mãe rezava, agradecendo a Nossa Senhora Aparecida pela graça alcançada. Meu pai, desconsolado sobre os cotovelos no meio fio, chorava como se tivesse perdido tudo. Eu? Bem, diria que acusei o golpe. E de maneira tão intensa que me tornei incapaz de dirigir em dia de chuva, a lembrança irrompia e com ela todo o desconforto. Nestas condições preferia tomar um táxi ou nem mesmo sair de casa e, confesso, nunca me esforcei para que fosse diferente. Neste dia, porém, a costumeira sensação de descontrole não se fazia presente. Eu me sentia confiante - motivado sobretudo pelos acontecimentos que haviam me conduzido até ali – enquanto caminhava ao lado de Thais pelo estacionamento. Ela, irritada, buscava abrigo no guarda-chuva que fazia questão em não dividir comigo. Eu, alheio à raiva, atirava-me à água que trazia de volta a realidade do concreto urbano, escorrendo pelo rosto e deixando as lembranças de menino soprar em meu coração. Quando alcançamos o carro, minutos depois, Thais deu a volta pelo lado do passageiro e atirou as chaves na minha direção. E acho que foi só mais adiante, quando já estávamos na saída esperando a cancela se erguer, é que tive a sensação de que algo ruim aconteceria.

O silêncio reinava absoluto, vez ou outra interrompido pelo ecoar dos trovões. O horizonte que se erguia à nossa frente era denso e negro e inquieto como se a noite, intempestiva, abrisse caminho. Thais parecia hipnotizada pelos pingos cristalinos que se chocavam contra o pára-brisa provavelmente revivendo, em algum lugar da memória, lembranças de um passado comum não tão distante. Eu conduzia o veículo com surpreendente tranqüilidade, certo de que uma força maior me guiava na jornada. Mas nem por isso ousei desafiar o destino. Ao contrário. Louvei o mau tempo na expectativa de criar equilíbrio, e o que veio em resposta foi a completa falta dele. Nos segundos que se seguiram vi minha confiança interior ser varrida, milhões de pensamentos se chocando em desordem sob o efeito da adrenalina que me inundava. Senti a transformação do campo energético ao mesmo tempo em que os pneus perdiam aderência. Tentei diminuir, mas o celta não respondeu. A película de água que se instalou entre os pneus e o asfalto foi crescendo, crescendo, e então me dei conta que já não podia controlar mais nada. Thais virou-se para mim e pude perceber naquele par de olhinhos assustados uma expectativa tão ruim quanto a minha. O carro continuou em movimento por conta própria, ameaçou rodopiar e eu então tomei a única decisão que parecia estar ao meu alcance naquele momento: pisei no freio com força. O choque veio em seguida, a batida oca e surda que jogou o que quer que estivesse à nossa frente a uma curta distância mantendo-o ali, quase colado. Eu havia acertado alguma coisa, mas... O quê exatamente? O carro ainda percorreu alguns metros e depois parou enviesado como se tivesse perdido o fôlego. Thais estava bem, eu um pouco trêmulo e desorientado, a cabeça por entre as mãos ainda presas ao volante. E então descemos.



* * *



Não sei o que se passa na cabeça dessa gente. Amo meu país e meu povo, mas quando se trata de desrespeitar padrões parece que somos mesmo campeões. É por isso que eu acho que as coisas não funcionam muito bem por aqui. Existe um caos camuflado, um processo de sabotagem inconsciente que age por conta própria quando se trata de responsabilidade e bom senso. Afinal de contas, pode existir algo mais insano do que andar de bicicleta à beira da estrada em dia de dilúvio? Um garoto e seus... Não sei, treze anos, talvez, agora estirado no acostamento. Descalço e ensopado. Inconsciente, porém respirando, o sangue escorrendo pelo nariz e algumas escoriações no pescoço. Do ponto de ônibus que havia ficado para trás todos correram para o local, dois minutos depois chegava uma viatura da Polícia Rodoviária. Pronto, o circo estava armado. Eu? Completamente perdido, situações sem prévio aprendizado costumam me deixar apreensivo. Mesmo assim, e agindo por instinto, me agachei ao lado do garoto. Não saberia dizer exatamente para quê, mas eu achava que de algum ponto deveria partir. Dei-lhe duas batidinhas no rosto, não houve reação. O moleque ia morrer ali mesmo, pensei, enquanto eu conseguiria correr alguns metros até que a multidão em fúria me alcançasse e desse início ao linchamento.

“Fique calmo”. Foi o que me lembro de ter ouvido assim que minha consciência fez a conexão com o mundo real novamente. “Chegue para lá, quero ver o estado dele”. Dois policiais haviam rompido o cerco formado pela multidão e estavam agora junto a mim. “Estávamos parados do outro lado da pista, um pouco mais para trás, e vimos o que aconteceu”, o outro emendou. “Você perdeu o controle do carro e saiu derrapando, chegou no acostamento e atingiu a bicicleta”. Não acredito! “Ele deve ter batido a cabeça na queda. E olhe essa perna aqui, houve fratura”. Meu Deus, onde tudo isso vai acabar? “Vamos removê-lo para a viatura. Pegue o seu carro e nos siga até o hospital”. Hospital? Eu não sabia se respondia, acatava em silêncio ou pensava em coisa melhor. Na verdade não me sentia em condições de pensar, mas isso começou a mudar tão logo me virei na direção da massa. Foi como se cada músculo fizesse o movimento em câmera lenta, as batidas do meu coração se misturando às vozes e se perdendo ao longe enquanto os pingos da chuva explodiam em meu rosto, transformando-se em milhares de novos pingos. Estava vindo. Isolei meu pensamento, pisquei mais forte e saí de cena.

Havia chegado o momento.

Fechei os olhos e os ensinamentos maravilhosos que eu havia recebido dias antes afloraram. Estendi as mãos para frente e voltei-as para o céu – parecia não chover sobre elas – e logo a energia se fez presente. A luz azulada e serena, a mesma que eu tivera oportunidade de acessar durante a viagem, tremulava por entre meus dedos. Ninguém pareceu notar, nem mesmo Thais, que havia ficado para trás no meio da confusão. A multidão nem parecia estar mais ali. Eu não ouvia suas vozes, não via seus rostos. Minha atenção estava centrada apenas no garoto e tudo que fiz foi envolver a perna fraturada por entre minhas mãos no instante em que os policiais se preparavam para removê-lo. “O que você pensa que está fazendo?”, um deles se antecipou e me segurou pelo braço, ao mesmo tempo em que parecia não querer impedir. Mantive as mãos naquela posição por alguns segundos, guiando meu pensamento para que a luz penetrasse na região e corrigisse o estrago. A aplicação foi rápida e em seguida o garoto despertou feito um coelho assustado. Levantou-se ligeiro, sem se dar conta que era o centro das atenções de toda aquela multidão e, sem apresentar qualquer sinal da fratura, limpou o nariz, montou soberano em sua bicicleta e saiu pedalando em disparada sob a chuva. Todos permaneceram ali parados, incrédulos. Olhos vidrados, cinqüenta ou sessenta pares, voltados para minhas mãos. De suas bocas saíam murmúrios que eu não conseguia entender, lágrimas brotavam com emoção. Duas senhoras fecharam seus guarda-chuvas, ajoelharam-se sob o sinal da cruz e se puseram a rezar. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, o policial disse, a expressão de quem não podia acreditar no que havia acabado de presenciar. Desvencilhei-me com delicadeza, abri um sorriso cínico e corri para o lado, alcançando Thais e a empurrando para dentro do carro. “Vamos”, eu disse, “ainda não estou preparado para os autógrafos”. Como que negando a cena, ela balançava a cabeça de um lado a outro. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, repetiu, as palavras carregadas de um sarcasmo desnecessário. Detive-me à porta, fixei o olhar nela por sobre o ombro. “Claro que sei. Vamos sair logo daqui”.

O silêncio parecia ter costurado seu último suspiro. E a chuva, ao contrário do que eu imaginava, não havia cessado.

29 de abril de 2009

Fome: uma questão de consciência


O Bloggers Unite é uma espécie de comunidade que congrega blogueiros ao redor do mundo para discorrer sobre temas específicos, sempre em nome de uma boa causa. O propósito deste 29 de abril, dia do aniversário da minha filha Julia (parabéns, Cuca!), é levantar vozes a fim de alertar o mundo para seu maior - e mais crônico - problema : a fome.

Não tenho dúvidas de que este é o mais sombrio e cruel mal de todos os males que assolam a humanidade. A meu ver, tudo se resume à questão que já levantei em outras oportunidades: a falta de consciência humana em relação a seu próprio semelhante. Uma raça que age desta maneira, sem se importar com o destino de seus irmãos, estabelecendo prioridades outras que sobrepõe a questão da fome, como o avanço tecnológico ou o entretenimento, está fadada ao fracasso. Como é possível pensar em estoques de alimento ao redor do mundo, concentrados nos países mais ricos, enquanto pessoas morrem de fome em regiões menos desenvolvidas? Estima-se que, mesmo nos Estados Unidos, metade das populações de descendência africana e latina vivam sob o estigma da fome. Há uma passagem em O último mensageiro (Abel expõe suas idéias sobre a questão enquanto caminha com Putu pela praia de Kuta) que retrata o tema da seguinte forma:

"- A FAO estima que algo próximo a seis milhões de crianças morrem a cada ano nesse mundo de Deus porque lhes falta alimento ou por doenças decorrentes da subnutrição, o que não deixa de ser a mesma coisa. E sabe o que nós fazemos? Produzimos armas, bombas, cigarros, lixo tóxico, tintura para cabelo e tantas outras baboseiras em nome do progresso. Que espécie de progresso é esse, afinal? "


O compromisso só será diferente a partir do momento em que a consciência humana atingir outro nível, nível este que eu, particularmente, não acredito que se dará nessa passagem da raça sobre o planeta. Paradigmas deverão ser quebrados, diferenças deverão ser superadas para que o movimento para varrer a fome do mundo se concretize. Para isso, só zerando e começando tudo de novo...

22 de abril de 2009

Abel Antunes


Começo aqui a discorrer um pouquinho sobre os principais personagens que compõe o último mensageiro e que tem convivido comigo nestes últimos anos. Criá-los, ordená-los e fazer com que cumprissem com o papel que lhes foi atribuído foi uma grande honra para mim. A pesquisa, a construção e a revisão foram extensas, mas é extremente gratificante ver o resultado final. Não digo isso por atribuir qualidade ao trabalho: aos olhos de quem faz, o resultado é parte de um processo estabelecido no início através de um objetivo, e ir em busca dele é o que realmente conta.

Abel Antunes é um idealista. Tem 33 anos, mora com os pais e trabalha como gerente de produção em uma fábrica de meias, atividade pela qual tem verdadeira repulsa. Não pela atividade em si, mas pelo meio em que ela se reproduz: condições de trabalho deploráveis, ambiente fétido, relações desumanas. Seus anseios vão ganhando corpo para que ele possa assumir, através de suas transformações internas, o papel que dá origem ao título. Nas suas próprias palavras: "É essa estranha sensação de ter nascido predestinado que me acompanha. “É você, Abel!” – parece dizer, ainda que a certidão de nascimento traga Abelor, Abelor Antunes". Um herói dos novos tempos, que passará por um ritual de iniciação em Bali e voltará ao Brasil para criar a nova ordem: "Que a memória de meus ancestrais celebre o dia que põe fim à era da incerteza, do oportunismo e do descompromisso humano. Hoje sou pura magia, rastro de pó que se estende pelo universo sem limites. Hoje é o meu grande dia!".

É aqui que a jornada se inicia. Convido você a fazer parte dela.

19 de abril de 2009

A hora e a vez do último mensageiro

Quando resolvi dar vida ao último mensageiro, tinha por objetivo não apenas criar um personagem que traduzisse meus própios ideais, mas que também pudesse estendê-los de forma a contribuir para uma sociedade mais consciente. Consciente de seu desequilíbrio, de suas atitudes prepotentes, de sua exploração irresponsável do próprio ambiente em que vive. E foi assim que nasceu Abel Antunes e sua história. Fiz-me valer do formato utilizado por James Redfield em sua A profecia Celestina (uma obra que me marcou profundamente na década de 90 e que foi o grande catalisador para a construção do mensageiro), onde um pano de fundo fictício - a busca de um manuscrito sagrado na Amazônia peruana - fornece espaço para o conteúdo metafísico de Redfield através de temas como a sincronicidade e a dinâmica energética dos seres humanos.

Em O último mensageiro, Abel Antunes vive o drama de dividir-se entre seus anseios messiânicos e o mundo real à sua volta, seus questionamentos avolumam-se a ponto de levá-lo à loucura. E então, inesperadamente, o contato com seres de outras esferas, realizado através de seus sonhos, começa a ocorrer. Quando ele se dá conta, está inserido na história que mudará, em definitivo, o padrão da sociedade contemporânea.


Na pele do último mensageiro, Abel será o responsável por "reconduzir a raça humana ao digno propósito de sua existência, fazendo-se reconhecer valores universais que primam pelo bem-estar social de cada indivíduo na face da Terra. Somente desta maneira poderá ser dada sequência ao processo evolutivo que atinge, em sua etapa final, o amor incondicional”, nas palavras de seus mestres . Será então submetido a um ritual de iniciação, em Bali, para transformá-lo na última tentativa de salvar o planeta.


Seguindo o 'esquema' Redfield, a ação transcorre com a CIA no encalço do mensageiro. A grande aventura tem então início e o final, em 2046, reserva grandes surpresas.


Mais do um simples exercício literário, ou a exaltação da crença em seres de outras esferas, responsáveis por nossa criação (believe it or not), o mensageiro tem por finalidade alertar para os males que tomam conta deste mundo. Males que, se não encarados a tempo, se encarregará o destino de fazê-lo.