2 de junho de 2011
21 de fevereiro de 2011
O Último Mensageiro - Introdução
São Paulo me recebia com o costumeiro ar de indiferença em uma nebulosa manhã de novembro. A chuva pedia passagem em meio a tímidos raios de sol, que como pálidos frisos transpunham a barreira cristalina das nuvens em esforço inútil, desmanchando-se pelo caminho antes de atingir o solo. Quadro desolador para um mês de primavera, pensei, o sol a pino e o calor tranqüilizante teriam sido mais convenientes para a aterrissagem. Eu me perguntava que tipo de transtorno estávamos causando ao planeta para que reagisse de maneira tão contraditória, indignado que parecia estar diante do descaso e da insensatez humana. Que tecnologia maligna era essa, afinal, que insistia em justificar seus erros em nome do progresso, comprometendo a mais básica das estruturas? Haveria de existir, em sã consciência, algo mais importante do que a própria saúde da Terra?
Lancei um suspiro no vazio e desviei o olhar, deixando os pensamentos de lado. Passei a admirar o campo, o vasto território organizado traçado em perfeito contraste. E não é que sabíamos fazer coisas boas também? Um pouco de engenharia e uma boa dose de bom senso para desenhar o imenso tapete verde e suas nuances, tons claros e escuros que ganharam evidência, saltaram aos olhos e então cederam, até desaparecer por entre as nuvens. E foi quando tudo estremeceu. O avião pareceu perder altitude e os luminosos de apertar cintos se acenderam. Entrávamos em zona de turbulência e os golpes de ar passaram a chicotear o 747 para cima e para baixo como folha de papel. Engoli seco e virei para os lados em busca de um olhar sereno, um sorriso amigo ou qualquer sinal que pudesse me acalmar, mas a passividade era geral. Rostos se escondiam por trás de temores procurando disfarçar a agonia, provavelmente a mesma que eu sentia, camuflando as primeiras ondas de pânico que ameaçavam irromper. Isso ainda duraria intermináveis minutos, o alívio geral só viria depois que o avião baixasse por entre o mar de nuvens e novamente a terra se fizesse à vista.
Pouco depois entrávamos em procedimento de pouso em Cumbica e confesso que só senti o coração desacelerar quando a aeronave tocou a cabeceira da pista, deslizou mansamente sob a chuva e parou com elegância ao seu final. Desembarque, Polícia Federal, banheiro e bagagem. E a surpresa de encontrar Thais a minha espera. Um leve abraço e um beijo que durou poucos segundos a mais do que o usual foram as marcas do reencontro, nada de sorrisos ou traços de saudade. O olhar soberano ainda me fuzilou com indignação, deu meia volta e se afastou apressado pelo corredor. Um pequeno instante de hesitação e também saí, acelerando o passo para alcançá-la já quase do lado de fora. Lembro-me de ter sido preenchido por uma onda de calor, não soube precisar de onde vinha, que lambeu cada célula do meu corpo como se o transformasse no próprio inferno.
A considerar os eventos da ida até que foi um bom recomeço. Nove dias antes, Thais havia me acompanhado até o setor de embarque para ali, em meio à multidão, exaltada e fora de controle, vomitar uma montanha de insultos. De insano e débil mental a perdulário e outras expressões que prefiro não mencionar, havia jurado que aquele seria nosso último encontro. “Pode apostar sua alma nisso, Abel!”, dissera, o indicador colado ao meu nariz. Com todos os caprichos que o destino era capaz de nos reservar, lá estávamos juntos novamente, sem desculpas ou lamentos. O orgulho não lhe permitiria tomar a iniciativa, ela esperaria até o momento em que eu dissesse “Thais, se eu contar você não vai acreditar...”. Mas ele, o destino, julgou não ser necessário. Ela logo poderia constatar com seus próprios olhos.
Adoro chuva. Quando pequeno costumava compor rituais imaginários pelo quintal ladrilhado da casa em que morávamos na Vila Mariana, o rosto voltado para o céu em sinal de agradecimento e os olhos fechados em sonhos. Os pedacinhos vermelhos, espalhados pelo cimento e contrapostos a outros menores, negros, pareciam recebê-la como bênção, dilatando-se em sorrisos a cada pingo. O cheiro do chão úmido logo emergia e ainda hoje, quando a chuva beija o asfalto, me lembro daquela época como se fosse hoje. Por outro lado, detesto dirigir na chuva, recordação de uma experiência não muito feliz que tive aos seis ou sete anos quando meu pai, dirigindo seu Fiat azul em um dia como esse, perdeu o controle do carro e saiu capotando. Conotação de sonho, flashes do horror misturados ao alívio repentino de constatar, como por milagre, uma família escapando ilesa do desastre. Minha mãe rezava, agradecendo a Nossa Senhora Aparecida pela graça alcançada. Meu pai, desconsolado sobre os cotovelos no meio fio, chorava como se tivesse perdido tudo. Eu? Bem, diria que acusei o golpe. E de maneira tão intensa que me tornei incapaz de dirigir em dia de chuva, a lembrança irrompia e com ela todo o desconforto. Nestas condições preferia tomar um táxi ou nem mesmo sair de casa e, confesso, nunca me esforcei para que fosse diferente. Neste dia, porém, a costumeira sensação de descontrole não se fazia presente. Eu me sentia confiante - motivado sobretudo pelos acontecimentos que haviam me conduzido até ali – enquanto caminhava ao lado de Thais pelo estacionamento. Ela, irritada, buscava abrigo no guarda-chuva que fazia questão em não dividir comigo. Eu, alheio à raiva, atirava-me à água que trazia de volta a realidade do concreto urbano, escorrendo pelo rosto e deixando as lembranças de menino soprar em meu coração. Quando alcançamos o carro, minutos depois, Thais deu a volta pelo lado do passageiro e atirou as chaves na minha direção. E acho que foi só mais adiante, quando já estávamos na saída esperando a cancela se erguer, é que tive a sensação de que algo ruim aconteceria.
O silêncio reinava absoluto, vez ou outra interrompido pelo ecoar dos trovões. O horizonte que se erguia à nossa frente era denso e negro e inquieto como se a noite, intempestiva, abrisse caminho. Thais parecia hipnotizada pelos pingos cristalinos que se chocavam contra o pára-brisa provavelmente revivendo, em algum lugar da memória, lembranças de um passado comum não tão distante. Eu conduzia o veículo com surpreendente tranqüilidade, certo de que uma força maior me guiava na jornada. Mas nem por isso ousei desafiar o destino. Ao contrário. Louvei o mau tempo na expectativa de criar equilíbrio, e o que veio em resposta foi a completa falta dele. Nos segundos que se seguiram vi minha confiança interior ser varrida, milhões de pensamentos se chocando em desordem sob o efeito da adrenalina que me inundava. Senti a transformação do campo energético ao mesmo tempo em que os pneus perdiam aderência. Tentei diminuir, mas o celta não respondeu. A película de água que se instalou entre os pneus e o asfalto foi crescendo, crescendo, e então me dei conta que já não podia controlar mais nada. Thais virou-se para mim e pude perceber naquele par de olhinhos assustados uma expectativa tão ruim quanto a minha. O carro continuou em movimento por conta própria, ameaçou rodopiar e eu então tomei a única decisão que parecia estar ao meu alcance naquele momento: pisei no freio com força. O choque veio em seguida, a batida oca e surda que jogou o que quer que estivesse à nossa frente a uma curta distância mantendo-o ali, quase colado. Eu havia acertado alguma coisa, mas... O quê exatamente? O carro ainda percorreu alguns metros e depois parou enviesado como se tivesse perdido o fôlego. Thais estava bem, eu um pouco trêmulo e desorientado, a cabeça por entre as mãos ainda presas ao volante. E então descemos.
Não sei o que se passa na cabeça dessa gente. Amo meu país e meu povo, mas quando se trata de desrespeitar padrões parece que somos mesmo campeões. É por isso que eu acho que as coisas não funcionam muito bem por aqui. Existe um caos camuflado, um processo de sabotagem inconsciente que age por conta própria quando se trata de responsabilidade e bom senso. Afinal de contas, pode existir algo mais insano do que andar de bicicleta à beira da estrada em dia de dilúvio? Um garoto e seus... Não sei, treze anos, talvez, agora estirado no acostamento. Descalço e ensopado. Inconsciente, porém respirando, o sangue escorrendo pelo nariz e algumas escoriações no pescoço. Do ponto de ônibus que havia ficado para trás todos correram para o local, dois minutos depois chegava uma viatura da Polícia Rodoviária. Pronto, o circo estava armado. Eu? Completamente perdido, situações sem prévio aprendizado costumam me deixar apreensivo. Mesmo assim, e agindo por instinto, me agachei ao lado do garoto. Não saberia dizer exatamente para quê, mas eu achava que de algum ponto deveria partir. Dei-lhe duas batidinhas no rosto, não houve reação. O moleque ia morrer ali mesmo, pensei, enquanto eu conseguiria correr alguns metros até que a multidão em fúria me alcançasse e desse início ao linchamento.
“Fique calmo”. Foi o que me lembro de ter ouvido assim que minha consciência fez a conexão com o mundo real novamente. “Chegue para lá, quero ver o estado dele”. Dois policiais haviam rompido o cerco formado pela multidão e estavam agora junto a mim. “Estávamos parados do outro lado da pista, um pouco mais para trás, e vimos o que aconteceu”, o outro emendou. “Você perdeu o controle do carro e saiu derrapando, chegou no acostamento e atingiu a bicicleta”. Não acredito! “Ele deve ter batido a cabeça na queda. E olhe essa perna aqui, houve fratura”. Meu Deus, onde tudo isso vai acabar? “Vamos removê-lo para a viatura. Pegue o seu carro e nos siga até o hospital”. Hospital? Eu não sabia se respondia, acatava em silêncio ou pensava em coisa melhor. Na verdade não me sentia em condições de pensar, mas isso começou a mudar tão logo me virei na direção da massa. Foi como se cada músculo fizesse o movimento em câmera lenta, as batidas do meu coração se misturando às vozes e se perdendo ao longe enquanto os pingos da chuva explodiam em meu rosto, transformando-se em milhares de novos pingos. Estava vindo. Isolei meu pensamento, pisquei mais forte e saí de cena.
Havia chegado o momento.
Fechei os olhos e os ensinamentos maravilhosos que eu havia recebido dias antes afloraram. Estendi as mãos para frente e voltei-as para o céu – parecia não chover sobre elas – e logo a energia se fez presente. A luz azulada e serena, a mesma que eu tivera oportunidade de acessar durante a viagem, tremulava por entre meus dedos. Ninguém pareceu notar, nem mesmo Thais, que havia ficado para trás no meio da confusão. A multidão nem parecia estar mais ali. Eu não ouvia suas vozes, não via seus rostos. Minha atenção estava centrada apenas no garoto e tudo que fiz foi envolver a perna fraturada por entre minhas mãos no instante em que os policiais se preparavam para removê-lo. “O que você pensa que está fazendo?”, um deles se antecipou e me segurou pelo braço, ao mesmo tempo em que parecia não querer impedir. Mantive as mãos naquela posição por alguns segundos, guiando meu pensamento para que a luz penetrasse na região e corrigisse o estrago. A aplicação foi rápida e em seguida o garoto despertou feito um coelho assustado. Levantou-se ligeiro, sem se dar conta que era o centro das atenções de toda aquela multidão e, sem apresentar qualquer sinal da fratura, limpou o nariz, montou soberano em sua bicicleta e saiu pedalando em disparada sob a chuva. Todos permaneceram ali parados, incrédulos. Olhos vidrados, cinqüenta ou sessenta pares, voltados para minhas mãos. De suas bocas saíam murmúrios que eu não conseguia entender, lágrimas brotavam com emoção. Duas senhoras fecharam seus guarda-chuvas, ajoelharam-se sob o sinal da cruz e se puseram a rezar. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, o policial disse, a expressão de quem não podia acreditar no que havia acabado de presenciar. Desvencilhei-me com delicadeza, abri um sorriso cínico e corri para o lado, alcançando Thais e a empurrando para dentro do carro. “Vamos”, eu disse, “ainda não estou preparado para os autógrafos”. Como que negando a cena, ela balançava a cabeça de um lado a outro. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, repetiu, as palavras carregadas de um sarcasmo desnecessário. Detive-me à porta, fixei o olhar nela por sobre o ombro. “Claro que sei. Vamos sair logo daqui”.
O silêncio parecia ter costurado seu último suspiro. E a chuva, ao contrário do que eu imaginava, não havia cessado.
15 de dezembro de 2010
O ULTIMO MENSAGEIRO - SINOPSE
As perspectivas da Terra são sombrias, o homem insiste em não respeitar os limites da natureza e de seu semelhante. Logo, a reação virá de maneira desproporcional.
É pensando nisto que os mestres do universo convocam Abel Antunes. Abel passará por um processo de iniciação ritualística em Bali, na Indonésia, onde receberá os poderes para que sua missão se cumpra. A CIA dispõe de tecnologia para localizar os contatos e parte em sua captura, mobilizando seus agentes e o exército indonésio. O trabalho de Abel se desenrola em meio às constantes tentativas de eliminá-lo, até o surpreendente final em 2046.
Ensinamentos espirituais, tradições balinesas, origens da humanidade. Pink Floyd e o Mágico de Oz. Amor, magia e poder se misturam nesta grande aventura que certamente levará o homem a repensar suas atitudes em relação ao planeta e a forma como lida com ele.
Antes que seja tarde demais.
8 de dezembro de 2010
1 de dezembro de 2010
ELE VEM AÍ!
27 de setembro de 2009
Ecos do Japi


Patty, se me permite, tomo a liberdade de fazer uso do título do seu blog , o Ecos do Japi (sigam o link e boa viagem), para este post. Lá estive no último sábado em companhia dos amigos Haroldo e Priscilla para uma gostosa caminhada em meio à mata, acompanhado também da Rosana e dos pequenos notáveis incansáveis João Pedro e Luiza. Além, é claro, da nossa querida guia Patty 'Salerosa' em pessoa.
A Serra do Japi é uma cadeia montahosa que se divide entre os municípios de Jundiaí, Cajamar, Pirapora do Bom Jesus e Cabreúva. Foi declarada reserva da Biosfera pela Unesco e tombada pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico. "Um santuário", como diz a Patty em seu blog, que abriga natureza diversa e exuberante.
Recorro ao meu querido Abel Antunes, personagem de 'O último mensageiro', em uma de suas passagens à beira do rio com Marina, deslumbrada com a beleza do lugar em que se encontravam:
"– Que lugar maravilhoso é este?
Crédito da foto 'Borboletas':Priscilla P. Gutierrez
1 de agosto de 2009
Charak em 2 tempos
"Tempo... O eterno desafio de a ele se opôr como se seu esgotamento fosse imediato. Transferimos o poder que nos torna senhores e escravos de sua natureza: quanto mais o temos, mais o ignoramos. E quando ele parece nem existir, imerso em sua condição ilusória, abre-se o atalho que recria a condição da vida".
Cris, suas fotos de infância foram inspiradoras, obrigado!
18 de julho de 2009
Um mundo de máscaras
Durante 8 anos o psicólogo social Fernando Braga da Costa, no intuito de concluir sua tese de mestrado, trabalhou como gari varrendo as ruas da USP. Segundo ele próprio, que diz ter vivido como um ser invisível no período,'Descobri que um simples bom dia, que nunca recebi como gari, pode significar um sopro de vida, um sinal da própria existência'. Professores e colegas que o conheciam dos corredores da USP simplesmente o ignoravam, não pelo fato de ter assumido um papel menos considerável dentro da estrutura funcional da sociedade, mas porque ele havia deixado de existir. Aos olhos daqueles, é como se o trabalhador fosse mera peça motriz, alguém que exerce função tão básica que não merece a mesma consideração (como se isso pudesse variar de ser humano para ser humano de acordo com sua instrução, cultura e posição). ''Às vezes, esbarravam no meu ombro e, sem ao menos pedir desculpas, seguiam me ignorando, como se tivessem encostado em um poste ou em um orelhão'.
"Compartilhar o que temos de melhor, sem questionar o quanto isso nos afeta como indivíduos, é o caminho que abre as portas para o amor fraternal e solidário. É exatamente disto que este planeta precisa"!
11 de julho de 2009
Teoria de Gaia
Corria o ano de 1969 quando James Lovelock, pesquisador e ambientalista britânico, trouxe à luz sua Teoria de Gaia, também conhecida como Hipótese de Gaia. A idéia considera o planeta Terra como um imenso ser vivo que regula suas próprias funções e reage, sempre que necessário, às atitudes exploratórias sem limites do ser humano. 2 de julho de 2009
Andrew Hann em revista
O entrevistado desta semana no Blog do Mensageiro é Andrew Hann, o agente da CIA incubido de colocar um fim à trajetória de Abel Antunes. O pouco tempo de convívio entre os dois, entretanto, parece ter sido suficiente para que Hann colocasse em dúvida seus valores e sua ética, repensando a forma que vinha conduzindo sua vida até então. Abaixo, os principais trechos de sua entrevista:BDM: Soa mais como traição.
BDM: Você deve estar se referindo aos milagres, Abel falou sobre isso em nossa entrevista. Do que é que estamos falando exatamente?
AH: De maneira nenhuma, conviver com Abel fez toda a diferença. Passar esse tempo com ele foi a experiência mais enriquecedora da minha vida, pude rever meus valores e conceitos. Não fosse isso e eu provavelmente estaria em alguma sala em Langley, esperando pela próxima missão. Ao contrário, consegui estabelecer novos rumos pensando no que sou capaz de fazer pelo meu semelhante, na energia que conseguimos produzir quando trabalhamos em conjunto. E isso, agora percebo, é o que faz esta vida valer a pena. Uma vez ele me disse: siga seu instinto, seja aquilo que o seu coração lhe diz para ser. E é exatamente isso que estou fazendo.
27 de junho de 2009
Abel Antunes em revista
Em sensacional furo de reportagem ;) , o Blog do Mensageiro conseguiu o que parecia ser impossível: entrevistar Abel Antunes, o herói errante que veio ao mundo com o intuito de salvá-lo e que acabou, por conta do destino, mimetizando-se à obra que lhe deu origem. 11 de junho de 2009
Dark side of the rainbow
Waters, Gilmour e cia. nunca deram crédito à versão. Alan Parsons, engenheiro responsável pelo disco, afirmou que o assunto tampouco foi mencionado durante as gravações. O fato, de qualquer maneira, é que as duas obras guardam notáveis coincidências, o que na pior das hipóteses leva ao conceito da sincronicidade criado por Jung.
Em O último mensageiro fiz alusão ao tema da seguinte maneira:
Bizarro. Curioso, para dizer o mínimo. Não se sabe ao certo de onde surgiu a composição, mas o duo O mágico de Oz, da obra de Frank Baum, produzido em 1939, e Dark side of the moon, álbum da banda inglesa Pink Floyd, gravado em 1973, compunham um continum intrigante. Sobrepostos, acionando-se a trilha do disco a partir do terceiro rugido do leão da Metro-Goldwyn-Mayer no filme, era possível observar uma sincronia incomum, como se as faixas houvessem sido compostas sobre os movimentos dos personagens. A começar pelo triângulo pendurado na árvore quando Dorothy, vivida por Judy Garland, se dirigia ao rancho dos tios, e que guardava incrível semelhança com o prisma da capa do álbum. Ou então seu encontro com o espantalho a caminho da terra de Oz, justamente quando a faixa “Brain damage”¹¹ ganhava seus primeiros acordes. A sra. Gulch em sua bicicleta e os sinos introdutórios de “Time”¹¹, o exército dos Munchkins marchando em perfeito compasso com as batidas de “Money”¹¹. Coincidências – ou evidências – que assumiam papel menor quando comparadas ao espírito que estas duas notáveis produções tinham sido capazes de criar: a busca pela consciência, fé e compaixão, de um lado, e a obra de rara inspiração e relação visceral com o espírito criador do outro.
Hann não teve o menor trabalho em conter o sono. Viu quando Dorothy perdeu o equilíbrio sobre a cerca e caiu, a voz suave de David Gilmour a expressar “And balanced on the biggest wave, you race towards an early grave” em “Breathe”. Ele sabia que Judy Garland havia morrido prematuramente aos quarenta e sete anos, vítima de overdose de barbitúricos, e foi ali que se convenceu que a ligação entre filme e banda não era simples obra do acaso...
Para finalizar, um trecho do filme em sincronia com 'Us and Them' (que já foi tema de um outro post). Interessante notar o movimento das três bailarinas e, principalmente, dos três carequinhas, cujas pernas se movimentam em linha com as batidas da música. Qunado David Gilmour entoa 'Black', o filme fecha em close sobre a bruxa; quando é 'and blue', a cena corta na sequência para a fada.
Sincronias à parte, ouvir 'Us and Them' é um exercício de prazer que se renova há 36 anos!
27 de maio de 2009
Mensagem do além

As palavras proferidas por Zok, líder maior dos seres do espaço, encontram Abel pela primeira vez em solo indonésio, terra para a qual partiu seguindo instruções de seu mentor. É a partir deste momento que nosso herói será agraciado com os poderes que lhe permitirão retirar o ser humano da letargia irresponsável em que se encontra.
Não sei exatamente qual é a visão de quem está do lado de fora do planeta, mas desconfio que não seja muito diferente disso que aí está. Que tipo de referência somos, afinal? De que forma contribuímos para a evolução, nossa e de nossos semelhantes? Estamos alinhados com os pressupostos de comunhão que banham outros pontos do universo?
Não há, seguramente, uma perspectiva mais otimista neste sentido. Mas há, ainda, a esperança de que isso mude. Façamos nosso papel!
Crédito da foto: Heaven´s gate
20 de maio de 2009
O poder da religião

– E por que, padre? – Abel o desafiou. – Porque a religião reconhece neste homem o espírito divino, porém nega sua condição humana? Cria a simbologia capaz de atrelar milhões à causa, sem deixar transparecer a verdade?
– Cuidado, meu rapaz, você está indo longe demais.
– Por questionar o papel da religião? Por ver nela um instrumento de controle que preserva suas “verdades”, que estabelece seus códigos e conjuga o poder? Ou o senhor vai me dizer que a Igreja não se prestou a este papel através dos séculos?
– Herege!
– Ora, padre, não sejamos hipócritas! Não posso negar que há um comprometimento espiritual neste caminho, principalmente daqueles que abraçam a fé com abnegação, mas é ingenuidade pensar no papel meramente religioso da Igreja. Ou o senhor acredita, por exemplo, que o espírito que incitou as cruzadas e a retomada da Terra Santa das mãos dos “infiéis” muçulmanos era apenas religioso? Os cavaleiros francos precisavam de ação para bancar suas fileiras e uma jornada ao santo sepulcro abria esta possibilidade, novas conquistas e principalmente novas propriedades. O senhor entende o que quero dizer, não? Suas riquezas aumentariam, e o que era mais importante, sem colocar em risco as da Igreja. Não sejamos ingênuos, padre, a religião sempre teve seus interesses.
– Se o senhor insistir em denegrir...
– O senhor está colocando em xeque o trabalho de Nosso Senhor? Seus ensinamentos?
– Claro que não, padre. Não questiono o papel de Jesus, mas sim o uso que se fez dele. Jesus foi um mensageiro enviado a este planeta para trabalho similar ao meu, apenas sob diferentes condições. A deturpação de sua obra é o que mantém o homem sob controle e afastado da verdade. A religião, senhoras e senhores, não atende a outros interesses que não aos do próprio homem!
13 de maio de 2009
Paz na terra aos... A quem mesmo?

9 de maio de 2009
Introdução de 'O último mensageiro'

Lancei um suspiro no vazio e desviei o olhar, procurando deixar os pensamentos de lado. Passei a admirar o campo, o vasto território organizado traçado em perfeito contraste. E não é que sabíamos fazer coisas boas também? Um pouco de engenharia e uma boa dose de bom senso para desenhar o imenso tapete verde e suas nuances, tons claros e escuros que ganharam evidência, saltaram aos olhos e então cederam, até desaparecer por entre as nuvens. E foi quando tudo estremeceu. O avião pareceu perder altitude e os luminosos de apertar cintos se acenderam. Entrávamos em zona de turbulência e os golpes de ar passaram a chicotear o 747 para cima e para baixo como folha de papel. Engoli seco e virei para os lados em busca de um olhar sereno, um sorriso amigo ou qualquer outro sinal que pudesse me acalmar, mas a passividade era geral. Rostos se escondiam por trás de temores procurando disfarçar a agonia, provavelmente a mesma que eu sentia, camuflando as primeiras ondas de pânico que ameaçavam irromper. Isso ainda duraria intermináveis minutos, o alívio geral só viria depois que o avião baixasse por entre o mar de nuvens e novamente a terra se fizesse à vista.
Pouco depois entrávamos em procedimento de pouso em Cumbica e confesso que só senti o coração desacelerar quando a aeronave tocou a cabeceira da pista, deslizou mansamente sob a chuva e parou com elegância ao seu final. Desembarque, Polícia Federal, banheiro e bagagem. E a surpresa de encontrar Thais a minha espera. Um leve abraço e um beijo que durou poucos segundos a mais do que o usual foram as marcas do reencontro, nada de sorrisos ou traços de saudade. O olhar soberano ainda me fuzilou com indignação, deu meia volta e se afastou apressado pelo corredor. Um pequeno instante de hesitação e também saí, acelerando o passo para alcançá-la já quase do lado de fora. Lembro-me de ter sido preenchido por uma onda de calor, não soube precisar de onde vinha, que lambeu cada célula do meu corpo como se o transformasse no próprio inferno.
A considerar os eventos da ida até que foi um bom recomeço. Nove dias antes, Thais havia me acompanhado até o setor de embarque para ali, em meio à multidão, exaltada e fora de controle, vomitar uma montanha de insultos. De insano e débil mental a perdulário e outras expressões que prefiro não mencionar, havia jurado que aquele seria nosso último encontro. “Pode apostar sua alma nisso, Abel!”, dissera, o indicador colado ao meu nariz. Com todos os caprichos que o destino era capaz de nos reservar, lá estávamos juntos novamente, sem desculpas ou lamentos. O orgulho não lhe permitiria tomar a iniciativa, ela esperaria até o momento em que eu dissesse “Thais, se eu contar você não vai acreditar...”. Mas ele, o destino, julgou não ser necessário. Ela logo poderia constatar com seus próprios olhos.
* * *
Adoro chuva. Quando pequeno costumava compor rituais imaginários pelo quintal ladrilhado da casa em que morávamos na Vila Mariana, o rosto voltado para o céu em sinal de agradecimento e os olhos fechados em sonhos. Os pedacinhos vermelhos, espalhados pelo cimento e contrapostos a outros menores, negros, pareciam recebê-la como bênção, dilatando-se em sorrisos a cada pingo. O cheiro do chão úmido logo emergia e ainda hoje, quando a chuva beija o asfalto, me lembro daquela época como se fosse hoje. Por outro lado, detesto dirigir na chuva, recordação de uma experiência não muito feliz que tive aos seis ou sete anos quando meu pai, dirigindo seu Fiat azul em um dia como esse, perdeu o controle do carro e saiu capotando. Conotação de sonho, flashes do horror misturados ao alívio repentino de constatar, como por milagre, uma família escapando ilesa do desastre. Minha mãe rezava, agradecendo a Nossa Senhora Aparecida pela graça alcançada. Meu pai, desconsolado sobre os cotovelos no meio fio, chorava como se tivesse perdido tudo. Eu? Bem, diria que acusei o golpe. E de maneira tão intensa que me tornei incapaz de dirigir em dia de chuva, a lembrança irrompia e com ela todo o desconforto. Nestas condições preferia tomar um táxi ou nem mesmo sair de casa e, confesso, nunca me esforcei para que fosse diferente. Neste dia, porém, a costumeira sensação de descontrole não se fazia presente. Eu me sentia confiante - motivado sobretudo pelos acontecimentos que haviam me conduzido até ali – enquanto caminhava ao lado de Thais pelo estacionamento. Ela, irritada, buscava abrigo no guarda-chuva que fazia questão em não dividir comigo. Eu, alheio à raiva, atirava-me à água que trazia de volta a realidade do concreto urbano, escorrendo pelo rosto e deixando as lembranças de menino soprar em meu coração. Quando alcançamos o carro, minutos depois, Thais deu a volta pelo lado do passageiro e atirou as chaves na minha direção. E acho que foi só mais adiante, quando já estávamos na saída esperando a cancela se erguer, é que tive a sensação de que algo ruim aconteceria.
O silêncio reinava absoluto, vez ou outra interrompido pelo ecoar dos trovões. O horizonte que se erguia à nossa frente era denso e negro e inquieto como se a noite, intempestiva, abrisse caminho. Thais parecia hipnotizada pelos pingos cristalinos que se chocavam contra o pára-brisa provavelmente revivendo, em algum lugar da memória, lembranças de um passado comum não tão distante. Eu conduzia o veículo com surpreendente tranqüilidade, certo de que uma força maior me guiava na jornada. Mas nem por isso ousei desafiar o destino. Ao contrário. Louvei o mau tempo na expectativa de criar equilíbrio, e o que veio em resposta foi a completa falta dele. Nos segundos que se seguiram vi minha confiança interior ser varrida, milhões de pensamentos se chocando em desordem sob o efeito da adrenalina que me inundava. Senti a transformação do campo energético ao mesmo tempo em que os pneus perdiam aderência. Tentei diminuir, mas o celta não respondeu. A película de água que se instalou entre os pneus e o asfalto foi crescendo, crescendo, e então me dei conta que já não podia controlar mais nada. Thais virou-se para mim e pude perceber naquele par de olhinhos assustados uma expectativa tão ruim quanto a minha. O carro continuou em movimento por conta própria, ameaçou rodopiar e eu então tomei a única decisão que parecia estar ao meu alcance naquele momento: pisei no freio com força. O choque veio em seguida, a batida oca e surda que jogou o que quer que estivesse à nossa frente a uma curta distância mantendo-o ali, quase colado. Eu havia acertado alguma coisa, mas... O quê exatamente? O carro ainda percorreu alguns metros e depois parou enviesado como se tivesse perdido o fôlego. Thais estava bem, eu um pouco trêmulo e desorientado, a cabeça por entre as mãos ainda presas ao volante. E então descemos.
* * *
Não sei o que se passa na cabeça dessa gente. Amo meu país e meu povo, mas quando se trata de desrespeitar padrões parece que somos mesmo campeões. É por isso que eu acho que as coisas não funcionam muito bem por aqui. Existe um caos camuflado, um processo de sabotagem inconsciente que age por conta própria quando se trata de responsabilidade e bom senso. Afinal de contas, pode existir algo mais insano do que andar de bicicleta à beira da estrada em dia de dilúvio? Um garoto e seus... Não sei, treze anos, talvez, agora estirado no acostamento. Descalço e ensopado. Inconsciente, porém respirando, o sangue escorrendo pelo nariz e algumas escoriações no pescoço. Do ponto de ônibus que havia ficado para trás todos correram para o local, dois minutos depois chegava uma viatura da Polícia Rodoviária. Pronto, o circo estava armado. Eu? Completamente perdido, situações sem prévio aprendizado costumam me deixar apreensivo. Mesmo assim, e agindo por instinto, me agachei ao lado do garoto. Não saberia dizer exatamente para quê, mas eu achava que de algum ponto deveria partir. Dei-lhe duas batidinhas no rosto, não houve reação. O moleque ia morrer ali mesmo, pensei, enquanto eu conseguiria correr alguns metros até que a multidão em fúria me alcançasse e desse início ao linchamento.
“Fique calmo”. Foi o que me lembro de ter ouvido assim que minha consciência fez a conexão com o mundo real novamente. “Chegue para lá, quero ver o estado dele”. Dois policiais haviam rompido o cerco formado pela multidão e estavam agora junto a mim. “Estávamos parados do outro lado da pista, um pouco mais para trás, e vimos o que aconteceu”, o outro emendou. “Você perdeu o controle do carro e saiu derrapando, chegou no acostamento e atingiu a bicicleta”. Não acredito! “Ele deve ter batido a cabeça na queda. E olhe essa perna aqui, houve fratura”. Meu Deus, onde tudo isso vai acabar? “Vamos removê-lo para a viatura. Pegue o seu carro e nos siga até o hospital”. Hospital? Eu não sabia se respondia, acatava em silêncio ou pensava em coisa melhor. Na verdade não me sentia em condições de pensar, mas isso começou a mudar tão logo me virei na direção da massa. Foi como se cada músculo fizesse o movimento em câmera lenta, as batidas do meu coração se misturando às vozes e se perdendo ao longe enquanto os pingos da chuva explodiam em meu rosto, transformando-se em milhares de novos pingos. Estava vindo. Isolei meu pensamento, pisquei mais forte e saí de cena.
Havia chegado o momento.
Fechei os olhos e os ensinamentos maravilhosos que eu havia recebido dias antes afloraram. Estendi as mãos para frente e voltei-as para o céu – parecia não chover sobre elas – e logo a energia se fez presente. A luz azulada e serena, a mesma que eu tivera oportunidade de acessar durante a viagem, tremulava por entre meus dedos. Ninguém pareceu notar, nem mesmo Thais, que havia ficado para trás no meio da confusão. A multidão nem parecia estar mais ali. Eu não ouvia suas vozes, não via seus rostos. Minha atenção estava centrada apenas no garoto e tudo que fiz foi envolver a perna fraturada por entre minhas mãos no instante em que os policiais se preparavam para removê-lo. “O que você pensa que está fazendo?”, um deles se antecipou e me segurou pelo braço, ao mesmo tempo em que parecia não querer impedir. Mantive as mãos naquela posição por alguns segundos, guiando meu pensamento para que a luz penetrasse na região e corrigisse o estrago. A aplicação foi rápida e em seguida o garoto despertou feito um coelho assustado. Levantou-se ligeiro, sem se dar conta que era o centro das atenções de toda aquela multidão e, sem apresentar qualquer sinal da fratura, limpou o nariz, montou soberano em sua bicicleta e saiu pedalando em disparada sob a chuva. Todos permaneceram ali parados, incrédulos. Olhos vidrados, cinqüenta ou sessenta pares, voltados para minhas mãos. De suas bocas saíam murmúrios que eu não conseguia entender, lágrimas brotavam com emoção. Duas senhoras fecharam seus guarda-chuvas, ajoelharam-se sob o sinal da cruz e se puseram a rezar. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, o policial disse, a expressão de quem não podia acreditar no que havia acabado de presenciar. Desvencilhei-me com delicadeza, abri um sorriso cínico e corri para o lado, alcançando Thais e a empurrando para dentro do carro. “Vamos”, eu disse, “ainda não estou preparado para os autógrafos”. Como que negando a cena, ela balançava a cabeça de um lado a outro. “Você faz idéia do que acaba de fazer?”, repetiu, as palavras carregadas de um sarcasmo desnecessário. Detive-me à porta, fixei o olhar nela por sobre o ombro. “Claro que sei. Vamos sair logo daqui”.
O silêncio parecia ter costurado seu último suspiro. E a chuva, ao contrário do que eu imaginava, não havia cessado.
29 de abril de 2009
Fome: uma questão de consciência

22 de abril de 2009
Abel Antunes

19 de abril de 2009
A hora e a vez do último mensageiro
Quando resolvi dar vida ao último mensageiro, tinha por objetivo não apenas criar um personagem que traduzisse meus própios ideais, mas que também pudesse estendê-los de forma a contribuir para uma sociedade mais consciente. Consciente de seu desequilíbrio, de suas atitudes prepotentes, de sua exploração irresponsável do próprio ambiente em que vive. E foi assim que nasceu Abel Antunes e sua história. Fiz-me valer do formato utilizado por James Redfield em sua A profecia Celestina (uma obra que me marcou profundamente na década de 90 e que foi o grande catalisador para a construção do mensageiro), onde um pano de fundo fictício - a busca de um manuscrito sagrado na Amazônia peruana - fornece espaço para o conteúdo metafísico de Redfield através de temas como a sincronicidade e a dinâmica energética dos seres humanos.Seguindo o 'esquema' Redfield, a ação transcorre com a CIA no encalço do mensageiro. A grande aventura tem então início e o final, em 2046, reserva grandes surpresas.
Mais do um simples exercício literário, ou a exaltação da crença em seres de outras esferas, responsáveis por nossa criação (believe it or not), o mensageiro tem por finalidade alertar para os males que tomam conta deste mundo. Males que, se não encarados a tempo, se encarregará o destino de fazê-lo.






