30 de março de 2009

Déficit de consciência


Imaginemos, sob hípótese, a seguinte situação: uma tradicional família brasileira, moradora de uma metrópole qualquer, pai, mãe e quatro filhos. Por conta do dinheiro que recebem do aluguel de propriedades e de outras fontes indiretas de arrecadação, além dos negócios do pai (uma destilaria, herança de família, entre outros), levam uma vida tranquila e cheia de regalias. O pai, como homem de negócios e bom administrador, planeja o orçamento familiar, distribuindo a rechonchuda receita de acordo com as necessidades da família. O rateio é mais ou menos este:



  • Dois dos quatros filhos, além do pai e da mãe, possuem plano de saúde. Os outros dois, por questões de alocação de verba, não;


  • Apenas um dos filhos vai à escola; os outros três, por questões de alocação de verba, não.


  • Luz elétrica há no quarto do casal e em outro, onde três filhos dormem juntos. O caçula, por questões de alocação de verba, fica no escuro;


  • Saneamento básico é um privilégio do casal. Os filhos, por questões de alocação de verba, usam um buraco no mato, atrás da casa, para suas necessidades (embora achem divertido)


  • O pai destina parte da verba para divulgar seus negócios, em especial a destilaria . Gasta boa parte do orçamento em propaganda na TV, no rádio e na mídia impressa.


  • Como se não bastasse, para deleite de esportistas e atores em geral (que não tem nada a ver com a história), aplica parte da verba no patrocínio de times de futebol, duplas de volei de praia e uma infinidade de espetáculos. A mulher, diante da situação da família, já abriu a boca pra reclamar. Mas como foi esculhambada, sem direito a voto, preferiu não tocar mais no assunto.

E aí você se pergunta: pqp, que pai desnaturado é esse?


Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Entenda-se por pai o governo federal (minúscula neles!), representado pelo presidente da república. A família? Cada um dos 190 milhões de habitantes deste país, privilegiados ou não. O fato é que o governo federal, de acordo com matéria publicada na Folha de São Paulo de hoje pelo jornalista Fernando Rodrigues, gastou cerca de R$ 2 bilhões entre publicidade e patrocínios em 2008, mais ou menos fifty-fifty. Segundo Rodrigues, a verba de patrocínios, que em 2004 era de R$ 500 milhões, duplicou! O bolo publicitário é maior do que os gastos da Unilever na área, um dos maiores fabricantes de produtos de consumo do planeta e que depende da publicidade para se diferenciar de seus concorrentes e gerar vendas. "Um estado forte", disse o magnânimo presidente.


Ora, senhor Lula, um estado forte se faz com pessoas fortes! Fortes no cárater, na saúde, na sabedoria. É assim que se constrói uma nação, não com o blábláblá de quem precisa dizer o que faz (tudo bem, uma verbinha de publicidade a gente até aceita), sobretudo às custas de R$ 2 bilhões de reais que, se investidos em outros setores prioritários, seguramente trariam mais benefícios.


A massa agradece.


28 de março de 2009

Gratidão

"- E já que falamos em agradecimento, é bom lembrar que vocês não sabem mais o significado da palavra. Desaprenderam a usá-la, acham que a vida se resume a um monte de atividades e que... - Uriah então se calou. Deixou que as últimas palavras se perdessem pelo ar para dar lugar a um conhecido sorriso, que com sua energia afagou as ondas que se quebravam a seus pés em sinal de agradecimento. Talvez o ser humano tivesse mesmo esquecido o valor da palavra. Mas a natureza, seguramente, não. "

O texto, extraído de O Último Mensageiro, retrata a percepção que seres de outras esferas, como é o caso de Uriah, tem em relação ao procedimento humano, em especial à questão do agradecimento. O que Uriah quis dizer, mas foi impedido pelo fato de Abel tê-lo ignorado e seguido em direção ao mar, era o abismo que havia sido criado entre o homem e o respeito pela vida, sua e de seus semelhantes.

Quem é que agradece, ao acordar pela manhã, pelo simples fato de estar vivo? Ou que reconhece o trabalho de um terceiro, seja a moça do café ou o manobrista do estacionamento? Poucos, é verdade. A maioria se volta para o seu pequeno grande mundo e a rotina pobre do dia a dia, sem dar valor para o que está ao redor.

O ser humano costuma agir assim. A natureza, sabiamente, não. Se a respeitamos, ela agradece. E se a desrespeitamos, ela também agradece, ainda que sob o instinto da fúria - tsunamis, furacões e derivados nada mais são do que manifestações do planeta diante da irresponsabilidade do homem, que não é capaz de preservar nem mesmo o ambiente em que vive. O mesmo se dá com seus filhos, basta ver nas imagens abaixo. A senhora em questão encontrou o leão, ainda filhote, faminto e quase morto na selva colombiana e durante 6 anos, todos os dias, cuidou do bichinho como um filho, até ter que entregá-lo às autoridades. Vejam a reação dele ao encontrá-la:



video

Preserve a natureza e seus recursos, agradeça pela dádiva da vida e siga sua jornada!


26 de março de 2009

300 de Esparta? Não. 378 do congresso, da esplanada dos ministérios...










Nestes meus quase 45 anos de vida não me lembro de ter estado sob processo, juridicamente falando. E não porque eu não tenha infringido a lei, cansei de fazê-lo travestido em rebelde sem causa. O que me diferencia em minhas singelas, selvagens e soturnas andanças na contramão da ordem é simples: nunca prejudiquei ninguém, física, moral ou economicamente falando.
Até onde a memória alcança, a família e os amigos gozam do mesmo status. Não há nada que aponte para um desvio de conduta que transgrida a lei (pausa para reflexão: sonegar imposto vale. Afinal de contas, pagar é o mesmo que pegar parte da comida que está no seu prato e delicadamente, com uma colher de prata, vertê-la na boca de um deputado gordo e seboso que fica sentado com o guardanapo de seda pendurado no pescoço e um sorriso de satisfação estampado na cara de pau. Quando este país passar por uma reforma fiscal séria e responsável eu serei o primeiro a pagar impostos com satisfação - hoje eu pago, embora puto - sabendo que a grana será utilizada para uma causa social e não para um deputado FDP pagar conta de celular de filha! ZAP neles! Sugiro que você volte ao início do parágrafo e pule o parênteses) ou que se reflita em danos ao próximo. Que fique claro que este é o meu caso em particular, até porque vivo cercado de pessoas de bem (que privilégio!), mas está longe de ser unanimidade nacional, principalmente onde deveria ser: o congresso e os ministérios.







Nada menos do que 378 processos tramitam no supremo contra deputados, senadores e, pasmem, ministros (escolhidos a dedo - rá, muito boa essa, deve ser com o dedo que está faltando - pelo próprio presidente da república, que vai ficar no minúsculo até essa merda mudar!). Aqueles que tem nas mãos o comando deste país, e consequentemente a responsabilidade de trabalhar em favor de uma população miserável e sofrida, são acusados de crimes contra a dministração pública - peculato, desvio de verbas - corrupção ativa e passiva, fraude em licitações, improbidade administrativa, crimes de responsabilidade, crimes eleitorias, crimes contra a ordem tributária, lavagem de dinheiro e até crime contra o sistema financeiro nacional. Caraca, não parece que acabei de listar as traquinagens de Al Capone?








Seria cômico, não fosse trágico. São esses caras aí, esses parasitas que comandam nosso país, que sangram os cofres públicos como se estar no poder lhes desse acesso e direito (quem foi o FDP que inventou isso?). São personagens sem caráter que não se incomodam com a pobreza que os cerca, desde que os seus estejam 'de boa na lagoa', ainda que não tenha sido seu o suor a contribuir para isso. São dejetos humanos que se agarram ao sistema como um cancêr, simplesmente porque o traço cultural que comanda as ações nestas esferas, instituído em um passado longínquo, sempre foi esse. Abel, em uma das passagens do Mensageiro, faz a seguinte afirmativa:



- O poder é viciado, corruptor e quase sempre inatingível. A lei nunca vale para todos. É um traço cultural arraigado e destrutivo, a maneira mais abominável de se fazer uso do poder.










Fazendo contas: em outubro de 2008 havia um pilantra sob processo para cada quatro parlamentares. PQP, os caras tem a chave do cofre da nação! Que me desculpem os outros 3, que certamente não estão na mesma condição porque foram mais espertos e jogaram a merda pra debaixo do tapete antes que alguém percebesse (acaba de estourar o escândalo do caixa 2 da Camargo Correia, utilizado para doações em campanhas políticas), mas segue para vocês uma das maiores homenagens que uma banda já fez à imundície do congresso nacional. Bravo!Espero contribuir, assim como os Titãs, para que esta situação mude.












Alertar já é um bom começo.


video

21 de março de 2009

Vergonha por dentro, vergonha por fora

Não bastassem as mazelas socias que tomam conta deste país, e que se revestem de tons sarcásticos quando casos como o das diretorias do senado vem à tona (pausa para reflexão: o senado federal - e insisto em escrever com minúscula, que caracteriza bem a pequenez da casa - contava com 181 diretorias, entre as quais a de coordenação aeroportuária, ou diretoria de check-in, cujo responsável tinha por finalidade dar assistência a parlamentares em viagem. O que o verme fazia, na prática, era furar fila para parentes de políticos, desrespeitando os demais passageiros. Tenha santa paciência, à merda com esse corporativismo vil que inventa cargos para engordar o salário destes parasitas enquanto tem gente passando fome neste país! Embora 50 diretorias tenham sido destituídas, ainda há gastos de R$ 1 milhão com as 131 que sobraram. Só mesmo uma revolução para quebrar esses paradigmas e por fim à festa do caqui, ZAP neles. Mas voltemos ao tema deste post; sugiro que você leia as primeiras linhas novamente e pule o parênteses), nossos sábios, bem preparados, responsáveis e porque não dizer visionários dirigentes também fazem das suas lá fora.


Durante o 5o. fórum mundial sobre a água, realizado em Istambul, na Turquia, o Brasil não reconheceu o acesso ao 'produto' como um direito humano. Embora haja um completo contrasenso na afirmação, até porque ninguém me parece suficientemente burro para fazê-la, mesmo sendo político, há uma lógica perversa por trás da questão.

O ministério das relações exteriores afirma que tal posicionamento "evita riscos de que a soberania do país sobre o uso deste recurso seja afetatada". Falemos, pois, do aquífero Guarani, a maior reserva subterrânea de água doce do mundo.

O aquífero Guarani se estende por cerca de 1,2 milhão de km², sendo 70% deste total em terras brasileiras (Paraguai, Uruguai e Argentina completam os 30% restantes). Identificado em azul no mapa abaixo, abrange os estados do Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Goiás.


São 55 mil km³ de H2O (para se ter uma idéia, 1km³ equivale a 1 bilhão de litros) que, segundo estimativas, poderia fornecer água ao mundo por 200 anos. Levando-se em conta as consequências do aquecimento global e a seca que deverá tomar conta de certas áreas do planeta entre os próximos 30 e 50 anos, é de se supor que temos um trunfo em mãos. Não é à toa que os Estados Unidos mantém tropas estacionadas no Paraguai, em tese como forma de monitorar a tríplice fronteria (a região de Foz do Iguaçu, no Brasil, Ciudad del Leste, no Paraguai e Puerto Iguazú, na Argentina) e a suposta existência de células terroristas na região que dão suporte aos atentados da Al Qaeda. O último mensageiro faz menção ao episódio lembrando da base de Mariscal Estigarribia, localizada no deserto do Chaco e apta a receber aeronaves de grande porte como os B-52 ou Hércules (a pista, na verdade é super dimensionada para os aviões que compõe a força aérea paraguaia. Segundo Claudio Aliscioli, repórter do jornal argentino 'Clarín' em entrevista ao Mensageiro, os Estados Unidos poderiam desembarcar um enorme contingente de tropas na região sem despertar a menor suspeita).

De volta à água: o governo brasileiro, na medida em que não caracteriza seu uso como um direito humano, procura se resguardar quanto à política de utilização e qualquer intervenção externa que possa ocorrer, já que aceitar o pressuposto do direito humano ao recurso seria como abrir as portas da esperança. Uma enorme estupidez, porque dá margem a uma interpretação completamente equivocada por conta do eterno mal do direito à propriedade, não do que é meu ou seu, mas do que o universo colocou à disposição de todos.



19 de março de 2009

Sincronicity II


"Adoro chuva. Quando pequeno, costumava compor rituais imaginários pelo quintal ladrilhado da casa em que morávamos, na Vila Mariana, o rosto voltado para o céu em sinal de agradecimento e os olhos fechados em sonhos. Os pedacinhos vermelhos, espalhados pelo cimento e contrapostos a outros menores, negros, pareciam recebê-la como bênção, dilatando-se em sorrisos a cada pingo. O cheiro do chão úmido logo emergia e ainda hoje, quando a chuva beija o asfalto, me lembro daquela época como se fosse ontem".




O pensamento é de Abel Antunes, personagem central de O último mensageiro em passagem logo no início do livro, quando desembarca na cidade em um dia tipicamente paulistano (chuva, ai ai...). Em essência o pensamento é meu, claro, e fico me perguntando até que ponto não confundimos nossos papéis, ele lá, inserido em seu contexto fictício e eu cá, tateando os limites da realidade. Na prática posso dizer que temos os mesmos ideais, os mesmos defeitos, e tudo começa a ficar mais interessante quando você percebe que o personagem é parte de você mesmo, nascido e criado na Vila Mariana onze anos depois.





A ficção inspira-se na realidade, e é justamente a partir dela que as 'coincidências' começam a acontecer.





A foto acima. Caiu nas minhas mãos por simples acaso, nem me lembro o que estava procurando quando a encontrei. Foi tirada quando eu estava na 5a. série e contava com 11 anos, exatamente a mesma idade que me separa do meu personagem (ou seja, enquanto eu posava para a foto, dona Lourdes Antunes, mãe de Abel, dava a luz ao dito cujo em alguma maternidade por aí). Hoje, conto com 44 anos, o que significa que se passaram 33 anos desde então (algo a ver com o número que aparece estampado na camiseta?). Para completar, extraio um trechinho da página 11 (olha ele de novo) que diz assim "Tem também meus pais, seu Euclides e dona Lourdes, trinta e cinco anos de convívio sob o mesmo teto, os dois primeiros sem a minha honorável presença". Abel Antunes tem, portanto... 33 anos.




Só faltava eu dizer que a bagaça branca estacionada mais ao fundo, à direita, era do avô dele...

15 de março de 2009

Steps

Certa vez, quando indagado como empreendera uma jornada de 2.000 quilometros a pé, Buda sorriu e respondeu:

"Foi fácil. Apenas dei o primeiro passo".

Três pontos a considerar:

1. Não importa o quão ousado seja seu projeto ou objetivo. Se você não der o primeiro passo em sua direção, jamais irá atingí-lo. Podem ser milhões de passos ou apenas algumas centenas, não importa. É a iniciativa em fazer o primeiro movimento que conta. Ouse, liberte-se! Ainda que haja um caminho tortuoso pela frente mova-se, pois nada é capaz de suplantar o poder da vontade, nem mesmo os olhares tortos daqueles que não acreditam em você.

2. Depois do primeiro passo o segundo, terceiro e assim por diante. A vida é uma sequência de passos e de nada serve ater-se aos que ficaram para trás, assim como aos que ainda estão por vir. O mundo pertence a quem se atem ao presente, não a quem chora o passado ou teme o futuro. Viva dia após dia.

3. Não se atinge a plenitude sem passar pelo amadurecimento, que só vem depois do entendimento, que por sua vez nasce depois do desabrochar. Chegamos onde devemos chegar no devido tempo, sem apressar ou queimar etapas, como insistimos em fazer quando algo não é do nosso agrado ou quando atrapalha nosso
projeto. Sequer percebemos que aquele obstáculo, por assim dizer, estava ali com algum propósito.

A natureza é sábia em seus miraculosa composição. As fotos da orquídea, por exemplo, foram tiradas com intervalo de dois dias. Não é de encher os olhos?

Saber esperar é uma virtude. Acreditar na espera,uma dádiva.

10 de março de 2009

3 coisas para banir do mundo



A questão nasceu ao acaso, fruto de um pensamento intempestivo no meio da tarde de ontem, segunda-feira 9. Trabalhávamos normalmente quando foi lançada: 3 coisas para banir, em definitivo, do mundo. Coisas que não só não fariam a menor falta (quem é que precisa, em sã consciência, de uma porcaria de um crachá?), mas contribuiriam para a formação de um mundo melhor, já livre de seus malefícios. E as idéias começaram a pipocar...

Armas foi unanimidade entre os presentes - eu, Natalia, Alê, Éder e Izis, que saiu-se logo em seguida com a mentira. Uma boa pedida, sem dúvida, mas a idéia era nos atermos ao concreto, ao que efetivamente pudesse ser atirado no lixo. E então veio o dinheiro (quem viu 'Na natureza selvagem', com Emile Hirsch, há de se lembrar da cena em que o moçoilo queima seus parcos dólares. Quem não viu, já tem programa para o final de semana). Placar: 2 x 0 para 'Us'.

O 'terceiro elemento' foi mais difícil de identificar. Alguém mencionou as drogas, com propriedade, mas no momento em que o álcool foi incluído na categoria houve controvérsias. Parece que ninguém abre mão (eu me incluo nessa) daquela cervejinha no final de quarta-feira pra quebrar o ritmo da semana. E a verdade é que a questão ficou no ar, esquecida logo que o trabalho voltou a tomar conta de nossas rotinas.

Não pude deixar de rir pra mim mesmo hoje, quando me dei conta que a resposta sempre estivera ali, bem à minha frente. Foi só botar os olhos na foto do infeliz (como já a usei antes, no text 'Us and them', a foto ficou arquivada e, como todas as outras, desfila pela tela do computador quando este entra em modo espera) que soube que a classe política, representada neste ato pelo pelo conde Edmar de Lama, o dono do castelo, se juntaria às unanimidades.

E assim ficou: adeus às armas, ao dinheiro, aos políticos. Aos instrumentos que fomentam o ódio, a ganância e a inveja, que mais destroem do que constroem e que - não tenho o menor pudor em dizer - fariam um grande bem à humanidade se fossem dessa pra melhor. Quem sabe em um mundo mais inteligente e equilibrado, onde o holísitco suplante o individual.

Enquanto isso, no planeta Terra...

7 de março de 2009

Simple Man

"Se o corpo precisa de energia, a alma precisa de poesia".

Assim alimentamos nossa condição interior, através da pureza que emana de toda manifestação criativa, seja literária, musical, artesanal etc. A música, em particular, tem um sentido especial, talvez por pular à nossa frente quando menos esperamos e trazer, neste flash, recordações de uma época marcada pela sua presença. A música toca, em todos os sentidos. Meus amigos blogueiros já manifestaram sua sensibilidade discorrendo sobre ela, seja em um momento especial embalado por Guilherme Arantes, seja nos rompantes de AC/DC ou na magia de Rush. A música tem esse poder e, quanto mais nos fala à alma, mais fundo garante um lugar especial em nosso repertório.

É o que ocorre com 'Simple man', música do Lynyrd Skynyrd que fez parte da trilha sonora de 'Almost Famous' (se você ainda não viu, corra. É um tributo às grandes bandas dos anos 70 e uma maneira toda especial de embarcar nessa viagem nostálgica que eu mencionava). A trajetória do LS foi marcada pela tragédia quando perdeu três de seus membros em um acidente aéreo em 1977 - um deles Ronnie Van Zant, vocalista e líder da banda que, ao lado de Garry Rossington, guitarrista, compôs 'Simple man' em 1973. O vídeo abaixo traz a letra e alguns flashes do Lynyrd skynyrd, que seguiu carreira somente dez anos depois, em 1987, quando Johnny Van Zant, irmão de Ronnie, assumiu os vocais da banda.

A simplicidade da música é do tamanho de sua sabedoria. Recomenda, por assim dizer, a adoção de hábitos simples, porém corretos, e que dão sentido à vida. Uma prática que, se estendida, seguramente criaria uma condição melhor para todos que habitam a esfera azul.

'All that you need is in your soul' ou 'Follow your heart and nothing else'. Viva o Lynyrd, onde quer que esteja!


video

Círculos de poder


Quis escrever inspirado pela imagem, e a primeira coisa que me veio à cabeça foi o provérbio zen que diz que "é na calmaria das águas que se pode enxergar o fundo do lago". Se parasse por aí já estaria de bom tamanho, o texto por si só é de uma grandeza que, se aplicada a nós mesmos, criaria a lucidez necessária para que toda e qualquer decisão transcorresse na mais absoluta paz, na ponderação que evita desdobramentos indesejáveis que uma decisão precipitada - ou tomada no calor de uma discussão - é capaz de gerar. E durante a concepção deste texto, talvez motivado pelas carga nefasta de notícias que vem do lado de lá e insistem em causar indignação (hoje pela manhã eu lia que o Ministério Público pediu à Justiça a indisponibilidade da mansão avaliada em R$ 5 milhões do ex-diretor geral do Senado, Agaciel Maia, para garantir que a grana volte aos cofres públicos - aliás, de onde nunca deveria ter saído - caso o nobre FDP seja condenado por improbidade administrativa), que o sentido que eu quis dar à imagem tomou outro rumo. E foi aí que nasceu o título.


Círculos de poder. Como quando atiramos a pedra, que por menor que seja, cria círculos concêntricos a partir da origem que em ondas se estendem em um processo de transferência de energia até a borda. O movimento é rítmico e cadenciado e, ao mesmo tempo, cria camadas representativas da própria sociedade.


Consideremos o ponto em que a pedra cai como o centro de poder. O Congresso, o Planalto... Pouco importa. O que vale é o referencial. As primeiras ondas representam o contexto palaciano, os conchavos e a troca de favores. A Cosa Nostra! É onde rola a sacanagem, o bonde da alegria, a tomada de posse da grana alheia sem permissão (e sem constrangimento). É preciso entender que acima das leis deste país estão as convenções deste país, que dizem que estar no poder é poder. E assim, é sabido, as leis a estes párias não se aplicam. Um deputado do Pará, de nome Luiz Sefer, é acusado de estupro e abuso sexual (o pior é que eles escolhem os mais hediondos. Não dava pra ficar no furto, como todos eles fazem?). Mas, como tem imunidade parlamentar, só pode ser processado pelo tribunal de justiça, caso não haja nenhum 'desvio' no processo para que isso não aconteça. É a velha tradição coronelista de sempre.


As ondas da sequência, ou os 'primos' mais próximos, são aqueles para quem favores são concedidos, falcatruas permitidas. Lembram-se das capitanias hereditárias? Aqui está outra forma de perpetuar o poder, dentro do processo chamado 'seletivo'. Nele o ilícito, por definição, o é até certo ponto. Ou melhor, até certo agente. Signifca que eu não posso burlar a lei (meldels, nem pensei nisso!), mas tem gente que pode. Por que? Porque a lei nunca está ao alcance de todos.


Por fim, as ondas externas. As que ficam distantes do ponto de orgiem e que geram maior esforço para se manter irmandas. Não quebram, vão até o fim. Por um princípio físico nunca serão as primeiras, tampouco é o que desejam. Clamam por dignidade e justiça, para que não haja enriquecimento de outros - seja ele material, cultural, espiritual - às custas de seus esforços.


Uma sociedade justa é aquela que mantém a mesma liga entre as ondas de seu lago, não importa o quão distante estejam. E para isso, ao meu ver, não há outra alternativa senão aterrar, cobrir o lago para que não haja um milímetro sequer de espaço. Depois, arregaçamos as mangas e começamos tudo de novo...

3 de março de 2009

Que país é este?

Nas primeiras páginas do Mensageiro, Abel destaca um traço marcante da personalidade do brasileiro. Claro que não dá pra generalizar, afinal de contas nem todos partilhamos do mesmo espírito de sacanagem, mas nosso herói diz textualmente: "Amo meu país e meu povo, mas quando se trata de desrespeitar padrões parece que somos mesmo campeões (é por isso que eu acho que as coisas não funcionam muito bem por aqui). Existe um caos camuflado, um processo de sabotagem inconsciente que age por conta própria quando se trata de responsabilidade e bom senso".



Este é o país que afronta:



Suas próprias leis, criadas por quem é expert em não cumpri-las;



Nossa inteligência, massacrada a todo instante por comerciais estúpidos, rostinhos bonitinhos sem conteúdo e corpinhos sarados no BBB;


O bom senso, limado do trânsito porque um bando de selvagens insiste em vomitar suas frustrações;


A higiene e limpeza, quando bitucas de cigarro são arremessadas sem a menor cerimonia pelas janelas destes mesmos animais e mais tantos outros seres bestiais que a eles se juntam; quando tomamos uma trilha em meio a mata e nos deparamos com latinhas de cerveja, pacote de salgadinhos e tantas outras porcarias por ali deixadas como se a natureza fosse um grande depósito cuja chave é da mãe Joana;



A própria natureza, agredida a cada rio poluído, a cada árvore arrancada, a cada obra irregular que se levanta;


Os menos favorecidos, que levantam as 5hs da manhã e 'viajam' até seus empregos porque o transporte público é uma merda; que comem mal, que tem assistência médica precária e que dependem da soliedaridade alheia;


O calouro, vítima de trotes descabidos que levam à humilhação, quando não à morte;


O luto, desrespeitado quando o arbitro decreta 1 min de silêncio antes de uma partida de futebol e as torcidas seguem cantando seus hinos e suas ameaças;


A vida, que vale menos do que uma bala perdida!



Corria o ano de 1987 quando Renato Russo e a Legião Urbana deram vida a 'Que país é este?', que mais tarde também passaria a fazer parte do repertório dos Paralamas. O país mudou nestes 22 anos: um operário assumiu a presidência, uma grande massa populacional entrou para o mercado de consumo e os bancos nunca ganharam tanto dinheiro. Valores, atitudes e princípios? Estes continuam os mesmos.
Crédito da foto: caiomy